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VICTOR MARIA: “O CASAL DE S. TOMÉ FOI O LUGAR ONDE FOI POSSÍVEL ESCONDER EM SÍTIO SEGURO OS LIVROS CLANDESTINOS TRAZIDOS DE FRANÇA NOS ESTOJOS DAS GUITARRAS DO ZECA E DO ADRIANO”

ENTREVISTAS

Natural da Marinha Grande, com raízes no Casal de S. Tomé, Victor Maria viveu as lutas contra o fascismo, e fez da França o seu país de acolhimento. Descubra-o nesta entrevista onde fala também da sua escrita.

 

Nasceu na Marinha Grande em 1954. A sua vida esteve ligada à luta contra o fascismo. Como foi essa sua vivência em prol da democracia?

A vivência da luta contra o fascismo, esteve sempre associada à pobreza e à miséria. Nela residem as recordações dos comícios relâmpago, nas reuniões na mata nacional nas praias e na parte proibida do Mosteiro da Batalha. A perseguição da PIDE, as detenções no aljube à LJUBE e na rua António Maria Cardoso as privações de poder falar, de reunir (as paredes com ouvidos). A desconfiança nos outros. Nos bufos, e nos indicadores …

 

Filho de operário vidreiro. Até que ponto é que o seu pai teve influência no seu caminho de luta?

O meu pai, como todos os vidreiros da Marinha Grande, viviam condições sociais que deixam marcas para todo o sempre, não é possível apagar da memória os efeitos da família e das dificuldades económicas por eles produzidas.

São feridas abertas que sangram sempre da mesma maneira, daí também a necessidade de continuarem a escrever, tentar sarar, transpondo para o papel a vida cruel que todos vivíamos nesses tempos.

 

A Escola Industrial e Comercial teve-o como aluno. Como foi esse tempo?

Foi o tempo de aprender a ser livre porque a liberdade não pode ser a conclusão de um raciocínio ilógico.

Ela advém pela coragem e pela lógica pelo tempo e pelas condições dadas para aprender a ser livre. Foi o lugar onde aprendi a pensar com as minhas próprias ideias, tornou-se a chave da

minha vida e das minhas ações.

 

Aos 21 anos emigrou para França. Como foram os primeiros tempos?

Foi o encontro com uma vida livre e repleta de ensinamentos, o conhecimento de uma juventude com atitudes revolucionárias, cujas reivindicações servem sempre as causas dos mais desfavorecidos (dos oprimidos).

 

Empresário, como se deu fora da sua terra?

Em França; todas as portas permanecem abertas. Mas sobretudo, a França foi o país que me salvou a vida (não tenho dúvidas disso). Em Portugal, estava já inscrito (célebre lista negra).

A minha viagem para o Tarrafal tinha já sido agendada. A França ofereceu-me a liberdade de escolher, de estudar, enfim de traçar o meu destino. Nenhum valor humano pode engrandecer e ser transmitido sem liberdade e transparência. Para mim foi o lugar onde finalmente pude manter relações normais com os outros e a minha própria pessoa.

 

Foi autarca em França. Como recorda esse tempo?

A veia interventiva sempre me acompanhou ao longo da minha vida, na clandestinidade, ser militante, era ser sindicalista, opositor, trazer outras regalias, outros salários, procurar sem fim

um modelo social diferente. Quando fui eleito, fiquei muito admirado! Assumi os dois mandatos, mas o fim das reuniões terminavam sempre noite dentro, isto tornou-se incompatível com as minhas funções de empresário, e então vi-me na obrigação de pôr fim a este cargo.

 

A sua ligação a Mira, mais concretamente ao Casal de S. Tomé, tem como “culpado” o seu avô, João Fresco. Conte-nos como essa localidade entrou na sua vida?

A minha ligação com o casal de São Tomé. Desde os tempos do menino estive muito ligado ao casal e o casal a mim. Era o lugar onde me perdia quando havia alguns dias de férias, foi um lugar onde ouvi e senti pela primeira vez a voz do sangue. Foi o lugar onde conheci o meu primeiro amor e o lugar onde em todo o lado encontrava omnipresente o vulto do meu avô João Fresco.

Foi o lugar onde foi possível esconder em sítio seguro os livros clandestinos trazidos de França nos estojos das guitarras do Zeca Afonso e do Adriano Correia de Oliveira.

O esconderijo imaginado pelo meu primo Zeca Almeida (na arca do milho) onde nunca ninguém imaginou e a PIDE, não conseguiu encontrar. Continuo ligado a este lugar onde vivem ainda bastantes familiares.

 

Tem vários livros editados, quer em português, quer em francês. Como é que essa veia da escrita surgiu em si?

Em que se tornariam as histórias se não houvesse ninguém para as contar? Mas também, porque espelho mais transparente do que uma página escrita. Nela permanece para todo o sempre a verdade irreversível do autor, a sua autenticidade se é sincero ou a sua falsidade se mentiu.

E porque a história do nosso povo, é uma história sem fim, ora morna, ora gelada, como tal é imperioso, levá-la fora de Portugal é urgente.

 

Aos 68 anos, o que ainda o faz correr?

Porque corro ainda? A escrita, é a única via que me permite sair enfim da invisível prisão da minha adolescência e de me transformar, de inconsciente vítima do passado, em homem responsável, que conhece a sua própria história (vive com ela).

Porque todos devem conhecer um ambiente político asfixiante que estrangulava a independência e desiludia as determinações, e porque os nossos dirigentes políticos ainda hoje transformam a nossa sociedade num espaço de terror. Porque é imperioso e urgente manter uma clara indignação e rejeitar os pseudovalores que nos pretendem impingir. A experiência dos 68 anos traz outra visibilidade e outras perspetivas.

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