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VASCO ESPINHAL OTERO: “HÁ QUE TER SEMPRE OS PÉS NO CHÃO, POIS QUANDO NÃO SOMOS SELECIONADOS OU PREMIADOS NÃO DEIXAMOS DE TER VALOR CULTURAL”

ENTREVISTAS

Vasco Espinhal Otero é natural de Cantanhede, psicólogo das organizações, orientação vocacional, formado em Coimbra, fez mestrado em Psicologia do Desporto em Lisboa, faz rádio na RUC em Coimbra e escreve artigos de opinião há duas décadas. Compõe e integra

vários grupos musicais como “Pirata Grau” e “Sins of a Man”, homem dos 5 continentes, adora viajar, cofundador do projeto “Conversa de Viajantes”, cinéfilo responsável pelas “4ª Clássicas” que vai no oitavo ano de programação, criador do projeto “Cabra Cor de Rosa” e realizador de cinema com o filme “Epopeia Gandareza” com produção do CineClub Bairrada, entre outros.

Fique para ler a entrevista com este realizador premiado.

 

Quando é que lhe surgiu a apetência pelo cinema?

Desde muito novo que aprecio a magia do cinema, em especial em sala. Sou apaixonado pela história do cinema e sempre gostei muito dos detalhes de ligação entre o som e imagem, entre o filme e a sua banda sonora. Fui refinando este gosto com o meu irmão e alguns amigos cinéfilos.

Entretanto entrei Rádio Universidade de Coimbra em 2003, lá fiz, entre outros, programas sobre cinema e bandas sonoras, assim como sessões de DJ set desta temática com o projeto Cinemusicorium, cheguei até a organizar e apresentar um concerto com a Orquestra Clássica do Centro só com músicas de filmes! Sempre fui um apreciador, nunca pensei em ser criador, mas depois houve um “clique”!

 

Quem o influenciou na escolha desta arte?

Há quase uma década atrás, gerou-se um movimento artístico e cultural no concelho de Cantanhede, do qual fiz parte, denominado Coletivo Artístico Efervescente, formado por pessoas ligadas a várias artes e ofícios nascidos e/ou residentes no nosso concelho que queriam cruzar conhecimentos e criar produtos artísticos originais aqui e com recursos de cá.

Quisemos contrariar a lógica de termos de ir lá para fora para se poder assistir e/ou criar espetáculos diferentes e que, paradoxalmente, só mais tarde já consagrados são recebidos por regiões como a nossa. A visão foi e continua a ser poder “gerar e depois exportar” a arte gerada no nosso concelho, ligando tradição e inovação de forma genuína, arrojada e diferenciadora e, assim, acrescentar referências a Cantanhede no mapa.

Projetos como a Lúcia Lima Associação Cultural em Cadima, a Festa da Anaia na Pena, os cine-concertos das “4ª Clássicas”, o próprio CineClub Bairrada, o Festival da Catraia na Praia da Tocha, entre outros têm, de uma forma ou de outra, essa origem e inspiração comum que continua a dar frutos. Ora, foi também por aqui que surgiu o projeto “Cabra Cor de Rosa”, cujo conceito passa pela construção de bandas sonoras para cenários projetados, imaginários ou reais, a solo ou com banda. Música, sonoplastia, poesia, entre outros ambientes sonoros como companhia para cinema, vídeo, fotografia, pintura, entre outras formas de expressão. E conceção da longa-metragem “Epopeia Gandareza” nasce precisamente neste processo e neste contexto, não é um evento isolado.

 

O filme “Epopeia Gandareza” foi premiado na Malásia. Como se sentiu ao receber a notícia?

O reconhecimento nacional e internacional tem sido, sem dúvida, uma grande satisfação, tendo em conta que há milhares de filmes a candidatarem-se em todo o mundo e há tantos filmes de excelente qualidade em competição. Obviamente que é bom sentir que esta “teimosia” que começou a ser desenvolvida em 2016, de forma independente, valeu a pena. Mas há que ter sempre os pés no chão, pois quando não somos selecionados ou premiados não deixamos de ter valor cultural.

Repare que este filme já foi traduzido para onze línguas diferentes e para mim pessoalmente poder assistir in loco e/ou saber que o filme está a ser mostrado em sala ou ar livre em plateias de países tão distantes como Índia, Malásia, Bolívia, África do Sul, entre outros é uma grande alegria. Os prémios se vierem ótimo, se não vierem bom na mesma. Felizmente já fomos premiados na Índia e na Malásia, até ao momento…

No nosso país, foi também muito importante e motivo de orgulho termos feito a estreia oficial do filme no Festival de Cinema de Avanca no ano passado, tendo sido um dos 3 finalistas da competição na categoria “Longa-metragem – Competição Avanca”.

 

O que podemos ver no referido filme?

Nesta epopeia, que teve a produção do CineClub Bairrada, o espectador é convidado a adotar a visão de uma narrador divino ou extraterrestre, vindo dos confins do Cosmos e do início microscópico da vida, que chega ao nosso planeta até chegar à região da Gândara, em Portugal…

No entanto, o filme não se fecha nesta região geográfica, ela é apenas uma referência, um ponto de passagem, uma cultura própria e única, mas entre muitas desta aldeia global. Daí também o adotar do conceito de epopeia, um pouco como Camões fez com “Os Lusíadas”. Os desafios ambientais também são abordados, a ameaça de oblívio da humanidade, mas há também um apontar de soluções na diversidade cultural, partilha emocional e arte científica.

Para o espetador / ouvinte trata-se, no fundo, de uma experiência sensorial e intuitiva, uma viagem guiada ao longo dos vários capítulos, embalada pela música. É este o seu propósito principal. Pausar, sentir, incomodar, deliciar, confrontar, refletir e transpor para um plano de meta-análise. O seu ritmo e tom são estabelecidos pela justaposição intencional de imagens e som, é esta a sua linguagem, provavelmente universal.

Esta obra “Epopeia Gandareza” comporta elementos de vários géneros cinematográficos: filme manifesto, artístico, experimental, musical, ambiental, documental e ficção científica. Tem excertos de poesia de grande escritor Carlos de Oliveira (que continuo a achar que é muito mais do que um neorrealista).

A edição esteve a cargo de Paulo Fajardo, Samuel Filipe e Vanessa Rodrigues, com filmagens de drone do João Amorim e a banda sonora pelo projeto “Cabra Cor de Rosa” composto pelos músicos Sylvain Barreto, João Toscano, Vasco Faim, Gabriel Salvador, Vasco Carvalho, Francisco Saldanha, Carolina Pessoa, Paulo Viegas, José Miguel Pires, Carlos Pilu, Vasco Espinhal Otero, entre outros com a produção musical feita por Sylvain Barreto.

 

Acha que o realizador que é está a ser reconhecido pelos poderes e pelos cinéfilos?

Não será diferente de outras artes, no sentido em que os pequenos e preciosos momentos de inspiração são seguidos de muitos e exigentes momentos de transpiração e posteriormente talvez algum reconhecimento. A persecução do objetivo artístico é sempre o mais importante e motivador. Passa inevitavelmente por concretizar uma visão na qual se acredita de forma precisa e intuitiva, traduzir a linguagem dos sonhos para a realidade, a sublimação diria Freud.

E claro que depois há uma luta interior entre o perfecionismo e o “desenrascaísmo”! E o mais difícil não é o início nem o fim, é o durante… Na conceção de uma obra, sabemos que há a detalhes que queremos que lá estejam e que sentimos que fazem a diferença, mas também há ser pragmático, aceitar sugestões e contributos sem achar que se perde o controlo da essência da obra e perceber que essa confiança é enriquecedora. Felizmente, contei com recursos humanos da nossa região com muito talento, técnica e vontade de arriscar. O compromisso e exigência acaba por ser chegar a um objeto artístico que possamos apreciar verdadeiramente se fossemos nós os espetadores na sala de cinema e posso fizer que sinto essa satisfação sempre que vejo o filme. Pessoalmente esse é o meu reconhecimento.

Repare que nós não tivemos nenhum apoio monetário a nível público ou privado, mas também não o solicitamos. Considerei que esses apoios poderiam ser mais úteis na fase em que estamos neste momento, com a obra já acabada e em fase de exibição, especialmente no formato de cine-concerto em que pretendemos apostar a nível regional, nacional e internacional. Agora é a altura fulcral.

 

Que se pode esperar de si, no aspeto cinematográfico, no futuro?

Para já a “Epopeia Gandareza” estará em exibição noutros festivais, salas e cine-teatros do país e além-fronteiras. Depois a grande aposta vai ser a realização de uma digressão em formato de cine-concerto, com exibição da “Epopeia Gandareza” acompanhada com a interpretação ao vivo da sua banda sonora pelo projeto Cabra Cor de Rosa, primeiramente na Região Centro, depois resto do país e estrangeiro.

Espero que também passe por Mira sim, se houver interesse.

Há também algumas curtas-metragens que já fizemos e que têm sido bem recebidas pelo público e outras mais que vão ser lançadas brevemente, também para exibição em Portugal e no estrangeiro.

Outro projeto no qual quero continuar a apostar e que acredito muito é o foto-concerto “SOM” da “Cabra Cor de Rosa”, em parceria com a Associação fotografARTE de Cantanhede, para o qual faço a banda sonora / sonoplastia específica de cada uma das cerca de 40 fotografias de vários autores ligados à referida associação.

 

O CineClub Bairrada já passou da casa para a rua. Em que localidades tem delegações?

O CineClub Bairrada começou há cerca de quanto anos atrás, trata-se o único no país que representa toda uma região para assim ter escala para desenvolver a Bairrada quando território cinematográfico.

Ao presente dia, o CineClub Bairrada já tem secções em concelhos como Águeda (no Clube Macinhatense), Mealhada (no GIR-Pampilhosa e Escola Técnico Profissional), Cantanhede (na Lúcia Lima Associação Cultural), Oliveira do Bairro (no Conservatório Artes e Comunicação – Filarmónica União) e Anadia (Club d’ Ancas). Pretendemos dar oportunidades e iniciativa ao muito talento que há nesta região a nível de recursos humanos técnicos, logística, cenários, paisagem, história, inovação, etc. Queremos pensar em grande e fazer as coisas aqui sem precisar de ir para os grandes centros urbanos, vamos cada vez mais ser uma alternativa forte, estamos confiantes. Veja por exemplo quando vai aos grandes centros comerciais por todo o país, encontra sempre os mesmos tipos de filmes. Ora, nós podemos fazer diferente.

Podemos trazer todos os géneros para todas as pessoas e algumas obras aqui da zona centro. Os objetivos do CineClub Bairrada passam por defender e impulsionar o cinema português, divulgar e desenvolver a cultura cinematográfica e defender o cinema como arte e como linguagem, promover o desenvolvimento do audiovisual e das novas tecnologias ligadas à imagem e ao som, produzir obras cinematográficas, vídeo e multimédia e acompanhar os jovens através de iniciativas formativas, divulgar o papel cultural e associativo do CineClub, promover a valorização cultural, histórica e social dos concelhos da região da Bairrada e da região centro no geral. A posta assenta em três pilares: programação, formação e produção.

Temos em desenvolvimento, por exemplo, o projeto Herança Doc Bairrada, cujo objetivo é o de documentar toda a região com recolha de gravações de imagens, sons, fotografias, testemunhos sobre pessoas, tradições, inovações, recolha de documentos, etc. O CineClub Bairrada propõe-se a alfabetizar a memória, documentar, produzir conteúdos, criar um repositório digital, recolha, tratamento, partilha e divulgação de conteúdos. Este desafio que colocado aos vários municípios para se criar um acervo de património cultural e imaterial da Bairrada, recolhendo imagens sobre a região e disponibilizar esse conteúdo para todos.

 

Em que localidades pensa ainda o CineClub para se estender?

Falta ainda concretizar o processo em Mira e Vagos. Contactos já foram encetados há algum tempo, vamos esperar que deem fruto. No caso de Mira, eu pessoalmente sonho com filmes e cine-concertos ao ar livre na Praia de Mira por alturas da Primavera e Verão já este ano por exemplo. Vamos ver se isso se concretiza e também outras iniciativas em recinto fechado claro.

E, sem dúvida. Sinceramente, acho que Mira merece.

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