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RUI PATO: “LUTÁVAMOS TODOS COM A ARTE E FAZÍAMOS PARTE DE UM EXÉRCITO QUE AJUDOU A COMBATER A DITADURA”

ENTREVISTAS

Rui Pato é médico e o músico que acompanhou José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. E mostra-se desiludido com as “pedras” que vão surgindo no “estreito caminho da democracia”.

 

Músico, acompanhante de José Afonso. Como é que tudo começou?

Tudo começou, ainda antes da minha ligação ao José Afonso e ao Adriano, com o grupo de fados do Liceu D. João III (agora Liceu José Falcão) onde eu, Francisco Martins, Manuel Borralho, Rui Borralho, Augusto Moreira e outros tínhamos um grupo de fados de alunos do liceu que atuava nas festas do liceu. Esse grupo era ensaiado pelo já famoso guitarrista António Portugal. Só depois, aos 16 anos fui convidado pelo José Afonso a fazer os arranjos e acompanhamentos dos seus primeiros discos de baladas.

 

Que recordações guardas desse tempo?

Desse tempo eu guardo dois tipos de recordações: por um lado o entusiasmo e a alegria de tocar quase diariamente ou com o José Afonso, ou com o Adriano, ou com o grupo do António Portugal…era uma altura em que fervilhava talento, inspiração em que Coimbra era quase o centro da evolução musical. Por outro lado, tenho a recordação triste da ditadura, da repressão, do pide, dos “bufos”, dos companheiros que morriam na guerra colonial, dos companheiros ou conhecidos que eram presos nas masmorras da ditadura.

 

O teu nome é bastante conhecido no meio das cantigas de protesto, na história da música de intervenção. Isso orgulha-te?

Claro que tenho muito orgulho nisso pois foi uma forma de combate ao Estado Novo; nessa altura a “canção era uma arma”… e todos os que nesses anos difíceis lutavam com a arte, seja a música, seja a poesia, fosse o teatro, era uma forma de combater…isso faz-me sentir que fazíamos todos parte de um exército que ajudou a combater a ditadura.

 

Médico e músico. As duas áreas complementam-se?

Para mim o exercício da Medicina terá sido, de certa maneira, influenciado por esse passado de luta que as “cantigas” me proporcionaram, pois logo que me foi possível entrei na exclusividade, dediquei-me inteiramente ao SNS e tudo o que eu aprendi nos tempos em que acompanhei o Zeca e o Adriano, o convívio que tive com os movimentos operários e estudantis, o contacto que tive com tantos intelectuais de esquerda, por certo que  me moldaram também como profissional de saúde.

 

Até que ponto o facto de seres filho de um jornalista te influenciou na tua carreira artística?

Sem dúvida; o meu pai, fruto da sua atividade jornalística era um homem de grande conhecimento, grande cultura e com amizade no meio artístico, no meio académico e no meio político; era um democrata intelectual e também um melómano. Obviamente que teve grande influência em mim.

 

Quem é hoje o Rui Pato?

Hoje o Rui Pato é um homem de 77 anos, cheio de recordações, umas boas, outras más, com um percurso, uma vivência riquíssima, um pouco nostálgico, um pouco desiludido com algumas das “pedras” que sempre estão a surgir no estreito caminho da democracia … e de um 25 de Abril que ainda está por se cumprir.

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