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UMA CONVERSA NÃO ACABADA COM JOÃO VIEIRA:“SEMPRE ME FASCINOU O VOO DESLIZANTE DAS GAIVOTAS NAS DUNAS SEM UM BATER DE ASAS”

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João Vieira pratica Voo Livre e “abriu-se” à nossa reportagem.  

E começou por “desfolhar” o livro das recordações: “A minha mais antiga memória sobre a vontade de voar remonta a fevereiro de 1972.  No dia 3 deste mês, ocorria em Portugal um dos maiores temporais vividos em 56 anos da minha existência. Ficou registado pois a minha mãe tinha dado à luz o meu irmão, na antiga casa dos Pescadores da Praia de Mira. Fiquei a cargo dos meus avós maternos e nesse dia improvisei com um lençol branco e umas cordas uma coisa parecida com um paraquedas para me arrastar pela rua e por último saltar da varanda da casa deles. Talvez o tivesse feito nesse dia, não fosse a minha avó ter-me interrompido a aventura com umas palmadinhas para apanhar o norte. Tinha 6 anos.”

João Vieira continua afirmando que “sempre me fascinou o voo deslizante das gaivotas nas dunas sem um bater de asas. Sempre me fascinou ver as águias a fazer círculos e a subir até desaparecerem no céu sem um bater de asas. Como seria possível esse voo? Era a pergunta que sempre ecoava dentro da minha cabeça. Como seria ver o mundo pelos olhos de uma ave? Gostava imenso dos relatos sobre aviação que o meu tio Juca, o dos “aviões”, trazia de Orly quando vinha de férias de verão a Portugal, relatos esses que ainda mais me espicaçaram esta vontade. Gostava muito de fazer papagaios de praia sempre com a ideia de um dia fazer um que me levasse.”

Nesta “viagem” pelo passado, o nosso entrevistado recorda que  “com 13 anos e já como sócio da Gulbenkian, numa das minhas idas as carrinhas Citroen de lata ondulada e que funcionavam como arquivos ambulantes de informação em papel, requisitei uma revista onde se falava sobre voo livre praticado com asas deltas. Havia lá muito conhecimento técnico e detalhes para construir uma asa delta. Juntei-me a 2 amigos e ao meu irmão, nascido 8 anos antes, e construímos uma asa com canas da índia que fomos buscar à capela da Presa de Mira, com cordas, fita adesiva e com 30 escudos de plástico de estufa comprados na retrosaria Cainé. A coisa foi feita à escala como mandava o artigo. Bem! Pelo menos à escala do desejo. A coisa deu mais para saltos do que para voar.”

“Recordo”, continua, “muitas tentativas de voo nos antigos balneários do Ala-Arriba e de cima dos montes enormes de brita e areia que serviram para a construção da escola secundária de Mira. Certo dia com mais vento, ligámos a cada vértice da coisa (“asa delta”) uma corda, talvez com uns 5 metros, ficando três no solo responsáveis por manter a altura ir puxando a asa. Esta ideia resultou e conseguimos com que a coisa e o meu irmão (o mais leve e novo), pairasse e se deslocasse ao vento durante uns minutitos até que uma rajada um pouco mais forte nos fez pensar mais seriamente nesta façanha. Mas mais uma vez a vontade de voar foi espicaçada.”

João foi cumprir o Serviço Militar Obrigatório e, lembra, “aí tirei um curso de paraquedismo civil e realizei uma dezena de saltos a partir de uma avioneta Cessna,  no aeródromo de Braga. No seguimento deste curso, ainda fiz por comprar um parapente, mas os 280 contos de custo naquela altura para mim eram uma fortuna. Mas o bichinho não tinha morrido.”

“Aquela vontade de tentar perceber porque cantam os pássaros continuava”, recorda, e “no ano de 2001, numa conversa de café soube onde se vendiam parapentes baratos. Ato contínuo convidei o meu irmão e um vizinho para dividir as despesas e adquirir um desses. Começou aqui uma nova forma de estar. Com dicas daqui e dali e muito empenho de “pirata” começamos nesse ano a voar livre nas dunas da Praia de Mira.”

A conversa não foi uma conversa acabada. João Vieira dentro de algum tempo vai contar-nos mais sobre este desporto. O Voo Livre.