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OPINIÃO: REFLEXÃO FILOSÓFICA SOBRE O SUCESSO

Capítulo: Filosofia do sucesso
filipe ferro

O que é o sucesso? O sucesso é importante? Haverá relação entre sucesso “pessoal” e sucesso “profissional”? Serão o sucesso pessoal e profissional coisas distintas? Farão parte do mesmo? Será conveniente separá-los? O sucesso é algo que acontece de “dentro para fora” ou de “fora para dentro”? Não deverá ser o sucesso a conquista da felicidade? Só se tem sucesso quando se ganha muito dinheiro? Não será um problema gravíssimo reduzir o sucesso à mera conquista financeira? A busca por sucesso profissional, não poderá ser, por vezes, uma tentativa de compensação da falta de autoestima, por causa da necessidade de se sentir valorizado pelos outros? Porque é que há pessoas que conquistam o tão desejado “sucesso profissional”, mas, no entanto, se encontram miseravelmente infelizes, chegando muitas vezes ao suicídio? Estas são algumas das questões filosóficas que dever-se-ão colocar quando se quer pensar acerca do sucesso. 

É preciso ter muito cuidado com a definição que se realiza sobre o sucesso. E a relação emocional que poder-se-á ter diante a mesma. Pois tanto podem levar a grandes conquistas, como há desgraça. Há pessoas que se destroem todos os dias em busca do tão desejado sucesso, do tão sonhado sucesso. Não incluem na definição do sucesso a paz interior, a saúde, por exemplo. Há quem busque o tão desejado sucesso profissional, por reduzir o sucesso à quantidade de dinheiro que se conquista, numa tentativa (inconsciente) de compensação da falta de autoestima. Definem o sucesso, mesmo que inconscientemente e indiretamente, como conquista de poder, de fama, de dinheiro, estatuto social. Por vezes, uma pessoa sem autoestima, traumatizada por não se sentir valorizada pelas outras pessoas, pode fazer de tudo para conseguir “sucesso”, e assim se sentir mais valorizada. Trata-se da busca de sucesso de “fora para dentro”. Claro que no fundo toda a gente quer ser feliz. Mas quem procura este tipo de sucesso não procura diretamente a felicidade. Procura a valorização dos outros. Com a ilusão de que isso por si só poderá trazer a tão desejada felicidade. 

Há quem passe a vida a sonhar com a valorização dos outros. A falta de autoestima pode levar a esse tipo de sonhos. Trata-se de uma dependência emocional profunda que leva a uma busca por sucesso, que poderá ser muito destrutiva. Não apenas por ser uma fuga do problema. Há quem destrua a vida a trabalhar demais, para ganhar cada vez mais dinheiro, tudo para poder sentir-se mais valorizada pelas outras pessoas. Na compra de carros e casas de luxo, por exemplo. O problema não é a existência por si só de carros e casas de luxo, como é óbvio. Haja qualidade de vida. O problema é a própria autodestruição, a própria autoilusão, a própria falta de autoestima, a própria dependência emocional, etc. Quem procura “sucesso”, não como simples conquista da felicidade, mas como necessidade de valorização dos outros, procura um falso sucesso. Procura um sucesso de “fora para dentro”. É o sucesso do ego, das aparências, das superficialidades. Da mentira, da ilusão, da fantochada, da fachada. Este é o sucesso em que as pessoas põem a felicidade de lado, mas em busca dela. Um sucesso projetado para o futuro e para o exterior (para os outros). Fora do “espaço/tempo” presente. Um sucesso em que se destrói a saúde para se o alcançar, não é sucesso, é apenas ilusão. É apenas fuga e compensação. Sucesso é felicidade. Tem de ser felicidade. A prioridade das prioridades do sucesso é a felicidade. Em tudo o que isso implica. Em tudo o que é necessário. Paz, saúde, prazer, amizade, etc. 

Uma pessoa que faz de tudo para ter sucesso, mas que não faz nada para se conhecer a si mesma, está fadada ao “insucesso”, por exemplo. Conhecer-se a si mesma é o maior de todos os sucessos. É preciso procurar o sucesso dentro, nunca fora. É preciso procurar o sucesso de “dentro para fora”. 

O que não falta no mundo, onde existe muito ego, é, pessoas a destruírem-se a si mesmas em busca do sucesso. Pessoas frustradas e insatisfeitas afetivamente e sexualmente, em busca do “sucesso” como forma de compensação. Temos de compreender, como é que nos relacionamos com o sucesso, quais são as nossas mais profundas intenções, o que poderemos estar a tentar compensar, do que poderemos estar a fugir, mas, acima de tudo, qual a nossa definição filosófica do sucesso. Pois pode ser a nossa salvação, ou a nossa maldição. O nosso ego quer um sucesso que mata a nossa alma, que cria a nossa desgraça, a nossa infelicidade. Há quem procure o sucesso maquiavelicamente. Usando os outros para atingir o fim, que é o sucesso. Essa é a busca egoica do sucesso. Onde se coloca o sucesso à frente da ética, do amor pelos outros, da felicidade. Um sucesso em que a felicidade é aquilo que se procura, mas também que se destrói. Portanto, sucesso? Sim. Mas como? Para quem? Com que prioridades? Em nome de quê? Com que intenções? Qual a filosofia de vida? Para quando? Questionemos! 

 

Capítulo da obra “Reflexões filosóficas sobre a felicidade Todos os Volumes” (Chiado Books, 2021). Autor Filipe Calhau.

Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

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