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OPINIÃO: PENSAMENTOS POSITIVOS, EMOÇÕES NEGATIVAS E FELICIDADE

Opiniao

É muito comum ouvir-se falar na importância do “pensamento positivo” para a felicidade. O que está certo em muitos perímetros. Precisamos de cultivar o “pensamento positivo”. Mas também precisamos de saber cultivar o pensamento positivo. De forma equilibrada, terapêutica. Há pessoas que têm perdas na vida, e não fazem os respetivos lutos, aceitando processar da dor que sentem, porque julgam que precisam de ter “pensamento positivo”. Acabam por acumular muitos bloqueios emocionais, reprimindo emoções, por causa do “pensamento positivo”. O problema não é o “pensamento positivo”. É a forma de nos relacionarmos com ele. Por exemplo, a pessoa que precisa de fazer o luto da perda que lhe aconteceu, chorando tudo o que tiver de chorar, é a pessoa que deverá procurar o lado positivo desse processo, não deve ser a pessoa que fugirá do processo doloroso por causa do “pensamento positivo”. Acumulando emoções por resolver. Gerando um peso no peito. 

A vida é dual. Ora traz alegrias, ora traz tristezas. É assim mesmo. E devemos procurar o lado positivo dessa dualidade. Não se valorizaria a alegria caso não se tivesse processado a tristeza. O prazer valoriza-se no contacto com a dor. Neste sentido, os opostos completam-se. E é neste enquadramento, é nesta consciência, que devemos procurar ter o “pensamento positivo”. Aceitando a dualidade emocional. Quando temos uma raiva reprimida, uma raiva por resolver, ou uma revolta, temos de processar essas emoções. Chorando, gritando, esperneando. Não devemos fugir do processo em busca do “pensamento positivo”. Devemos antes procurar o lado positivo do processo. Enfrentando-o de frente. Entrando em contacto com ele. Reconhecendo que depois de processadas e transmutadas as emoções negativas, poderemos ter mais paz, poderemos ter mais equilíbrio, mais felicidade. Isto sim é procurar ter um “pensamento positivo” felicitário. Pois há “pensamentos positivos” infelicitários, em que, por causa do ego, que serve para se fugir da dor e da morte, foge-se também, de forma inconsciente, das emoções negativas e dolorosas que se tem para processar e resolver, o que só poderá trazer severas consequências para a saúde. 

Temos de aprender a aceitar o nosso “lado negativo”, as nossas sombras, ao invés de se fugir, com as ilusões do “pensamento positivo”. O que quero transmitir com este capítulo é: não basta ter pensamento positivo, é preciso saber ter pensamento positivo. Há pessoas que poderão estar todas reprimidas emocionalmente por causa dos “pensamentos positivos” que praticam. O que só poderá levar a explosões emocionais, mais cedo ou mais tarde. E a muitos tipos de problemas de saúde psicossomáticos. Por exemplo, uma pessoa que está num trabalho, num local de trabalho, que lhe faz mal, que lhe prejudica em vários sentidos, poderá precisar de abandonar esse trabalho, procurando o lado positivo da mudança, ao invés de criar ilusões de “pensamentos positivos”, arranjando desculpas para permanecer nele. Por vezes, os “pensamentos positivos” que as pessoas realizam, têm por trás ilusões criadas pelos próprios egos, buscando, mesmo que de forma inconsciente, o mais “fácil” e “confortável” na “imediatidade”. O que nos obriga a refletir sobre o tipo de “pensamento positivo” que praticamos, que devemos praticar. 

Nem todos os pensamentos positivos têm efeitos positivos nas nossas vidas. E, nem tudo aquilo que parece negativo, é assim tão negativo para as nossas vidas. Uma pessoa que esteja a chorar, a gritar, e espernear, pode parecer negativa, mas estar apenas a processar dores que já precisavam de ser processadas há muito tempo, o que só poderá fazer com que saia mais leve, após o processo. Neste caso, sair mais leve, é sair mais positivo, mais feliz. O que à primeira vista poderia parecer negativo, pode não ser assim tão negativo, podendo ser até o contrário. Nem tudo é o que parece. Por vezes as aparências iludem bastante. Um determinado tipo de “pensamento positivo” pode trazer consequências positivas para as pessoas, e outro determinado tipo de “pensamento positivo” pode produzir o efeito contrário. Cada caso é um caso, depende do contexto. Devemos dar muita atenção a este tipo de questões. Pois é a felicidade que está em causa. E a felicidade importa bastante. 

Capítulo da obra “Reflexões filosóficas sobre a felicidade Todos os Volumes” (Chiado Books, 2021). Autor Filipe Calhau.

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Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

 

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