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OPINIÃO: O DIA 28 DE MAIO

Opiniao

O dia 28 de Maio, é uma data que assinalo, porque transformou, em grande parte, a minha vida.

Não porque em 1926 um golpe de Estado, protagonizado por militares e civis antiliberais,  teve como consequência a queda da Primeira República e a instauração da Ditadura Militar, que levaria, depois da aprovação da Constituição de 1933, ao surgimento do Estado Novo, mas pelo que sucedeu, nesse dia, em 1969, nos jardins da Associação Académica de Coimbra e as suas consequências diretas para o que veio a ser a minha vida futura.

Os acontecimentos que se seguiram à visita de Américo Tomaz à universidade de Coimbra, no dia 17 de Abril, para inauguração da recentemente construída faculdade de Ciência, endureceram a luta de um Academia que há anos pugnava por maior autonomia e mais representatividade nos órgãos da universidade, pela reintegração de professores afastados e amnistia para estudantes expulsos por motivos políticos.

A prisão de alguns líderes estudantis, a agressividade crescente dos inspetores da PIDE e a necessidade de uma maior informação e coesão de todos os estudantes levaram à realização de várias assembleias magnas que tiveram lugar nos Gerais (Pátio da Faculdade de Direito) ou no ginásio da Associação Académica. É decretado o Luto Académico (que poria fim a todas as atividades da Queima das Fitas que se avizinhava) e a atividade reivindicativa intensifica-se à medida que aumentam as prisões dos estudantes mais interventivos. As manifestações culturais de apoio à academia em luto, que entretanto iam surgindo, davam-nos forças para continuar. 

A 6 de Maio a Universidade de Coimbra é encerrada por decisão ministerial, sendo mantido o calendário de exames.

Nos círculos de discussão e convívio que então substituem as aulas, a greve aos exames é equacionada como forma de pressão para que o governo suspenda as sanções sobre alguns representantes da Academia a quem estava impedida a frequência dos cursos e a realização de provas de exame.

A 28 de Maio, uma quarta-feira, tem lugar, nos Jardins da Associação Académica uma concorrida Assembleia Magna com a participação de mais de 5000 estudantes que ratifica por ampla maioria a proposta de “abstenção aos exames”.

Andava eu então no 3º Ano da Faculdade e tinha acabado de fazer 21 anos. Sentada na relva, rodeada de colegas e amigos, ouvi atentamente as várias intervenções e tomei a decisão. Não me iria apresentar aos exames que começavam na segunda-feira seguinte.

Regressei a casa nesse fim-de-semana pronta a assumir as consequências desse meu ato.

Estranhamente os meus pais ouviram e perceberam a minha atitude. Até ao momento eu não lhes tinha dado motivos para duvidarem das minhas decisões. Mas enquanto a minha mãe exigia que voltasse para casa, o meu pai proferiu a frase que mudou radicalmente a minha vida “ Não. Ela volta para Coimbra. Não foi para lá, só para estudar e tirar o curso. Também foi para ver e aprender a viver.” 

E foi então, que começou a minha formação política a sério. Em conversas de café, nos convívios e eventos culturais, nas leituras e discussões nos jardins da Associação, nos piquetes à porta da PIDE quando algum amigo era preso. 

Nas distribuições de flores pelos habitantes de Coimbra, ou quando lançávamos balões com mensagens de ordem à beira do rio. Quando redigíamos e policopiávamos panfletos que distribuímos pelas ruas e escondíamos debaixo da camisola quando algum agente da Guarda Nacional Republicana, que tinha invadido a cidade, se aproximava. 

Quando fugíamos à frente dos polícias a cavalo que desciam a Avenida Sá da Bandeira e procurávamos refúgio entre as bancas do mercado. 

Com a zona da universidade militarmente ocupada, irmanados na luta, aprendíamos, sonhávamos e lutávamos por um mundo que, tínhamos a certeza, havia de chegar um dia.

 

(in Memórias e Outras Histórias, 2022  Maria de Fátima Flores)

Maria de Fátima Flores 

Professora aposentada, militante do Partido Ecologista Os Verdes, eleita pela CDU na Assembleia de Freguesia de Arcos e Mogofores (Anadia)

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