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OPINIÃO: MAIA ALCOFORADO (1899 – 1974)

Opiniao

José Francisco de Paula da Ressurreição Oliveira Maia Alcoforado nasceu em Panóias, concelho de Ourique, a 2 de Abril de 1899.

Tinha apenas 16 anos quando se estreou como jornalista em “A Capital”, em defesa da participação de Portugal na 1ª Grande Guerra, em que ainda chegou a tomar parte. Essa colaboração estendeu-se depois a vários outros jornais e revistas onde, além das polémicas e campanhas que sustentou, lançou a ideia de prestar a Fialho de Almeida uma grande homenagem em Vila de Frades.Deve-se-lhe também, em parte importante, a inauguração do monumento aos mortos da Grande Guerra do concelho de Mira, em 1933.

Rebelde nas letras, na vida social e política, o que lhe trouxe alguns amargos de boca, tendo chegado a estar exilado na Galiza. Sempre intransigente, porém, com as suas ideias e seus princípios, escreveu, entre outros, os seguintes livros: “Cartas que Vogam”(1923), “Crónicas de Qualquer Dia”(1925), “Poalha Doirada”(1926), “Ílhavo terra maruja, Marujos da terra dos Ílhavos”(1933) e “À Boca Pequena…”(1935), livro que foi apreendido.

Viveu largos anos em Mira, onde casou com a professora Primária D.Cármina e onde dirigiu o jornal republicano “A Razão”.

Deve-se a ele, entre outras, a inauguração do monumento aos mortos da Grande Guerra do concelho de Mira, em 1933, que hoje está no jardim da Praça da República, mesmo no Centro da Vila

Nos últimos anos foi funcionário das Bibliotecas da Fundação Calouste Gulbenkian”.

Morreu em Janeiro de 1974, apenas uns meses antes do 25 de Abril que, por certo, o iria exultar no seu amor pela Liberdade.

 

“MOÇOS DE PORTUGAL “

Escrevo-vos precisamente no dia em que a falange do exército português, combatendo em França pelo Direito e em prol da liberdade, acrescentou à História-Pátria e à História militar de todos os povos, a página mais bela em heroísmo, a estrofe mais encantadora em valentia, que até hoje nossos olhos viram e leram e nossas memórias recordam com mais entusiasmo e comoção.
Recordo-vos no dia de hoje, moços de Portugal, que na nossa terra estais anciando por verdes de novo a bandeira verde-rubra da República tremular sem se sentir envergonhada, sobre a cabeça dos que por Ela teem combatido e sofrido com aquele panaché que é apanágio de brava gente portuguesa que tem agarrado ao coração o escuda da Pátria e dentro do peito a braza viva e ardente que os atira e impele para a lucta no gesto heróico e lindo de verem dignificado o ideal que acarinhavam, que servem com nobreza, de que são escravos por amor.
Eu sei bem que dentro da mocidade luzida existe uma casta, uma fauna de cansados, que a soldo de servos duma dinastia de que um tarado foi o primeiro rei e um imbecil seu último representante alimenta a enganosa esperança de ter chegado o momento de se ver agachada nas dobras dum manto cheio de bolôr, a cegar-se com o brilho das jóias falsas que ornam uma corôa, a arrastar-se como um reptil pelas alcatifas dos palácios, a subirem de cócoras os degraus carunchosos dum trono.
Eu sei bem que às mãos desses aleijados na alma hão-de ir ter alguns exemplares deste manifesto.
Orgulho-me que os seus olhos poisem sobre o que a minha pena escreve .
E orgulho-me porque, barbaro e rebelde, as minhas palavras hão-de queimar-lhes as pupilas, hão-de faze-los vomitar o escremento nauseabundo que os covardes arrecadam no estomago.
A ditadura que em 28 de Maio burlou o país inteiro, alcandorou essa orda de maus portugueses ponte vermelha do ódio que tributa aos republicanos de todas as estirpes politicas.
Confiemos porém nos que por Portugal ainda ficaram, ignorados dos que mandam e esquecidos dos que os inspiram…
Esquecidos e ignorados de ditadores e de monárquicos.
Moços de Portugal!
Neste dia em que aos nossos ouvidos chegam os soluços cheios de lágrimas das mães portuguesas que em La Lys perderam os filhos, envoltos na aureola rosa e doirada duma valentia quase inédita – outro pranto, não menos comovedor, onde há laivos de maior tragédia, entra pela nossa alma dentro, arrepiando-se como o frio glacial – como lâmina de aço que nos perfurasse as carnes.
É o soluço das mães a quem os ditadores arrancaram os filhos, atirando-os para os carceres e para os porões dos navios, por terem pegado em armas na defesa da integridade do regime – por terem gritado com a voz dos canhões – Viva a República.
Urge estancar de todos a dor, dos olhos nostálgicos das mães portuguesas, essas lágrimas que uma cambada sem Fé nem Lei faz verter ao som das gargalhadas que ensaiaram nos coros dos seminários à hora das sacras fantochadas.
E se a hora que passa é a hora dos novos que recebem das mãos da Liberdade a espada com que hão-de combater os pusilanimes e os traidores, os reacionários e os que odeiam a Democracia – chegou a vossa hora, moços de Portugal!
A trincheira está aberta!
Para a lucta
Exigem-na os mortos de Fevereiro e os mártires de 1891

Viva a República!

Viva a Liberdade!

Maia Alcoforado

No exílio, Coruña, 9 de Abril de 1927”

Mário Caiado