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OPINIÃO: ILUSÕES, PROJEÇÕES, PESSOAS E RELACIONAMENTOS

Opiniao

Há duas grandes formas de uma pessoa procurar realizar-se na vida. De uma pessoa procurar a felicidade. Ora de “fora para dentro”. Ora de “dentro para fora”. A primeira é gerada inconscientemente pelo nosso ego, criando a dependência emocional, as projeções, as ilusões, as compensações, e a “síndrome da vitimização”. Entre outras. A segunda é a única forma de conseguirmos ser felizes. Pois gera a independência emocional, verdadeira liberdade e a autorresponsabilização pelas consequências das próprias escolhas. No fundo, todas as escolhas que têm como objetivo direto ou indireto, consciente ou inconsciente, que fazemos, na perspetiva felicitária, ou envolvem uma tentativa de realização de “fora para dentro”, ou envolvem uma tentativa de realização de “dentro para fora”. 

Por exemplo, uma pessoa sem autoestima, pode tentar realizar-se de duas grandes formas (mesmo que de forma inconsciente): ou, faz de tudo para que as outras pessoas a aceitem e gostem de si, por vezes aniquilando a própria essência para o efeito, buscando fama, “estatuto social”, poder, posses e reconhecimento, a todo o custo, numa clara tentativa de realização de “fora para dentro”, esperando que venha algo de fora que resolva essa lacuna, ou, percebe que o problema é exclusivamente interior, e procurar (verdadeiramente) tratar-se terapeuticamente, através de exercícios de interiorização meditativos, entre outras formas eficazes, com a tentativa de realização de “dentro para fora”, pois procura a solução interior. Uma pessoa sem autoestima, ou naturalmente e inconscientemente tenta compensá-la, ou procura terapêuticas para resolver o problema e acaba por o resolver com responsabilidade e esforço individual. Caso não resolva o problema, naturalmente irá tentar compensar de “fora para dentro”. Projetando o problema nas outras pessoas. Julgando que as outras pessoas é que são culpadas por, ao não gostarem da própria, ela também não poderá gostar.  O que demonstra um quadro típico de dependência emocional. Em que se vive a ilusão de que o poder para resolver o próprio problema está na outra pessoa, não na própria. O que é muito comum.

Também é muito comum as pessoas tentarem compensar o vazio que sentem através dos relacionamentos. Como não enfrentam o vazio que sentem de frente, criam a ilusão de que as outras pessoas é que têm o poder para resolver esse mesmo vazio. Chegam a definir a solidão como: falta dos outros. Todavia, a solidão não é um problema relacional, é um problema individual. Pode-se estar rodeado de pessoas e no entanto sentir-se um vazio enorme. E pode-se estar completamente isolado dos outros, numa vida eremita, e não se sentir qualquer tipo de solidão. Isto prova que o problema não se resolve de “fora para dentro”, não se resolve dos “relacionamentos para o individual”. Só se resolve de “dentro para fora”. 

Há pessoas que estão sempre com medo de estar sozinhas. Terminam um relacionamento afetivo e saltam logo para outro. A vida acontece saltando de relacionamento em relacionamento, com a rapidez de um relâmpago, como se estivessem sempre a fugir de si mesmas. Na maioria dos casos os relacionamentos correm mal, pois há muito conflito, muitas culpas e cobranças, muitos ciúmes e crises de raiva. Acontece, entre outras razões, porque as pessoas acabam por projetar a própria felicidade e/ou infelicidade nas outras pessoas com quem se relacionam, e nos relacionamentos em si. Menosprezando a própria interioridade. Se querem ser felizes, são os outros que têm de fazer por isso. Se estão infelizes, são os outros os culpados por isso. Tanto relativamente à felicidade, como relativamente à infelicidade, acaba por haver uma projeção para “fora”. Acaba por haver uma dependência emocional, uma falta de responsabilização pela própria felicidade e/ou infelicidade. Há pessoas que passam a vida a saltar de relacionamento em relacionamento, de conflito em conflito, sem nunca se aperceberem, sem nunca quererem admitir, que o problema está dentro delas mesmas. Enquanto não olharem para dentro, com coragem e humildade, com responsabilidade e maturidade, nunca poderão resolver o vazio que sentem pela raiz. Nem o problema da falta de autoestima. Pois há uma grande relação entre falta de autoestima e solidão. Andam sempre de mãos dadas. 

Portanto, se queremos conquistar a felicidade, qualquer filosofia de vida, implícita ou explícita, que se adote, tem de pressupor um processo de interiorização. De conquista da autoconsciência. De liberdade e de responsabilidade individuais. Não deverá ser uma filosofia de vida que pressuponha uma tentativa de realização de “fora para dentro”. Mesmo que de forma indireta e inconsciente. Pois certamente conduzirá à infelicidade e desilusão. 



Capítulo da obra “Reflexões filosóficas sobre a felicidade Todos os Volumes” (Chiado Books, 2021). Autor Filipe Calhau.

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Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

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