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OPINIÃO: FILOSOFIA, ECONOMIA E FELICIDADE

Opiniao

A partir do momento em que as transações no mundo acontecem com o dinheiro como objeto de troca, temos de perceber a verdadeira importância do dinheiro para a vida das pessoas. O dinheiro vale como objeto de troca. Apenas. Por si só não vale nada. 

Em primeiro lugar temos de compreender que a busca pelo dinheiro nem sempre se trata apenas da simples busca por dinheiro, por mais e mais dinheiro. Há pessoas que procuram no dinheiro alguma forma de poder, para tentarem compensar a falta de autoestima, e chamarem sexualmente a atenção, mesmo que inconscientemente. Portanto, a questão que se deverá levantar é a seguinte: o que é que nos leva a procurar mais dinheiro do que aquele que verdadeiramente precisamos? Queremos dinheiro apenas para podermos ter mais qualidade de vida, ou também queremos dinheiro para podermos comprar coisas no sentido de podermos ostentar, e assim as pessoas nos “valorizarem mais”? Queremos o dinheiro por si só (e assim termos mais qualidade de vida), ou queremos tentar compensar algum problema ou complexo interior (mesmo que inconscientemente)? Pois, estas questão são filosoficamente importantíssimas. 

Geralmente, o dinheiro vem quando realizamos um trabalho, quando vendemos um produto, quando prestamos um serviço. O objetivo principal deverá ser servir as outras pessoas. E em função de as servirmos, em função de darmos um produto ou serviço que as pessoas queiram e/ou precisem, recebemos o dito dinheiro, como objeto de troca. O objetivo principal das pessoas deveria ser centrarem-se em servir as pessoas de alguma maneira, e com isso receberem o dinheiro. Não deveria ser apenas estarmos centrados em receber o dinheiro. Não deveria ser estarmos centrados quase única e exclusivamente em receber o dinheiro. Mesmo que se aldrabe ou preste um mau serviço. Estão a perceber a diferença no foco. Enquanto um “tipo de pessoa” centra-se em prestar um serviço e por causa disso recebe dinheiro, outro “tipo de pessoa” centra-se em receber o dinheiro, não em vender ou prestar um bom serviço. O objetivo principal deverá ser sempre servir as pessoas, a sociedade, o mundo. Não deveria ser apenas receber o dinheiro. Pessoas que se centram em apenas receber o dinheiro, poderão acabar por roubar ou explorar as outras pessoas. Pois não têm como objetivo principal dar, servir, vender aquilo que as pessoas poderão gostar ou precisar. Têm apenas como objetivo obter dinheiro. 

Uma pessoa empreendedora que visualize algum produto para criar ou vender, ou algum serviço, no sentido de melhorar de alguma maneira a qualidade de vida das pessoas, e que a par com isso pense na necessidade de fazer lucro, muito provavelmente irá pensar também em dar um salário digno aos colaboradores e às colaboradoras. Pois não tem como principal objetivo, quase única e exclusivamente, ganhar dinheiro. Tem como principal objetivo servir as pessoas e a sociedade, de alguma maneira. O que deverá levar à necessidade de servir bem os clientes e os/as colaboradores/as. 

Uma pessoa centrada no dinheiro, centrada em “receber”, poderá até servir bem os clientes por saber que terá benefícios em termos de lucro, mas muito provavelmente não servirá bem os/as colaboradores/as. E o que é que isto tem a ver com economia e felicidade? Tudo! A economia deve acontecer num registo moral em que as pessoas se servem umas às outras dignamente. Não deve acontecer num registo em que as pessoas só estão centradas em receber dinheiro. Caso contrário as pessoas entrarão mais cedo ou mais tarde em colapso, porque o que mais importa é ganhar dinheiro, e não ser feliz e contribuir para a felicidade das outras pessoas. A economia é feita pelas pessoas. Deve acontecer em nome da felicidade das mesmas. Uma boa entidade patronal deve preocupar-se com a felicidade laboral das pessoas que emprega. Não deve estar apenas centrada no lucro. Não se importando com a exploração indigna dos/as colaboradores/as. Qualquer negócio deve ser criado em primeiro lugar para servir as pessoas. É este que deverá ser o objetivo principal de cada empreendedor/a. O que significa servir clientes e colaboradores/as. Caso se crie um negócio com o principal objetivo de fazer lucro, é natural que o lucro esteja em primeiro lugar, não os/as colaboradores/as. Pensar apenas em receber dinheiro fazem os ladrões e as ladras. Pensar em servir as pessoas como principal objetivo fazem as pessoas que querem contribuir para um mundo melhor, para melhorar a qualidade de vida das pessoas, para a felicidade das pessoas. 

Se uma sociedade tiver muitas pessoas que só procurem dinheiro em primeiro lugar, não olhando a meios para atingir os fins, onde se trata mal os/as colaboradores/as, o que leva à exploração, trabalhando-se em demasia, criando-se um profundo desequilíbrio, onde muitas pessoas andam exaustas e a entrar em colapso, o que só poderá causar uma infelicidade generalizada, só se poderá esperar crises económicas. Uma economia saudável só é possível se, em sociedade, as pessoas estiverem saudáveis e felizes em todos os sentidos, não apenas no âmbito laboral e financeiro. Se uma maioria da população entra em colapso a economia também entrará, mesmo que uma muito pequena minoria tenha tanto ou mais dinheiro do que a maioria da população. 

Portanto, relativamente ao dinheiro e à economia, primeiro temos de pensar em servir as pessoas, temos de pensar na felicidade das pessoas. Pois se as pessoas estiverem bem e felizes, a economia também ficará. Primeiro as pessoas, a felicidade das pessoas, servir as pessoas, só depois, e por acréscimo, o dinheiro e a economia. Nunca esquecendo a necessidade de se respeitar os outros seres vivos e a natureza num sentido geral. 



Capítulo da obra “Reflexões filosóficas sobre a felicidade Todos os Volumes” (Chiado Books, 2021). Autor Filipe Calhau.

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Canal de Filosofia no YouTube: https://www.youtube.com/c/FilipeFerroCalhau/videos

Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

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