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OPINIÃO: FIGURAS DE MIRA – JOÃO DA BARRETA

Opiniao

Figura incontornável da vida social e cultural de Mira,poucos serão os que não tenham conhecido,ou pelo menos ouvido falar,do ti João da Barreta.A sua existência não pode ser dissociada da filarmónica,como maestro e mestre de tantas gerações de músicos.Era uma companhia agradabilíisima, sempre bem disposto e pronto a contar uma anedota.

“…para além da família a música foi sempre a minha paixão!”

João Maria Marques de Oliveira (o João da Ti Barreta) nasceu em Mira a 10 de Janeiro de 1918 no seio de uma família humilde. Seu pai, José Marques de Oliveira, proveniente do Concelho de Ovar e sua mãe, Maria Augusta de Jesus, do Concelho de Mira, tiveram também uma filha, Maria Dolorosa de Jesus, sendo esta mais velha que João 18 anos. João Oliveira trabalhou desde muito cedo no plantio da floresta, foi agricultor, mais tarde já com 36 anos, foi empregado na Firma Martins & Rebelo, distinguindo-se como chefe de Brigada em Vale de Cambra, e por último trabalhou na Cooperativa Agrícola Mirense. Apenas com oito anos de idade, e a frequentar a escola na 3ª classe, João Oliveira iniciou o seu estudo e gosto pela música aprendendo os primeiros sons e as primeiras escalas num violoncelo que pertencia a Bartolomeu Bingre de Sá, estudante do Seminário. Com ele deu os primeiros passos, mas a vontade de saber sempre mais era muito forte, pelo que procurou outro amante da música, Batista Quitério, mais conhecido por Batista do Gago, (“ o meu mais direto professor”, como dizia), fazendo este parte também de um conjunto pessoas que referia sempre com muito carinho. Em 1927 ingressou na Banda Filarmónica como aprendiz de trompa sob a orientação do professor e Maestro Jorge Augusto de Carvalho. Fez a sua 1ª atuação em Julho de 1928, na Festa da Santa Marinha, no dia 17 com o hastear da bandeira e no dia 18 com arruada, missa, procissão e concerto. No dia 27 de Outubro de 1928 faleceu o pai do João Oliveira e este mesmo sendo uma criança sentiu a necessidade de começar a trabalhar para ajudar a família. E assim aos 11 anos inicia o seu primeiro trabalho no plantio da floresta de Mira, sem nunca esquecer ou deixar para trás a música. Com doze anos passa a tocar trompete e a distinguir-se pelo seu esforço. Durante o seu percurso musical manteve contacto com algumas personalidades do meio musical da época nomeadamente Mestre Jorge Augusto de Carvalho, Mestre José António dos Santos Silva, não esquecendo porém outros grandes músicos e compositores com quem conviveu ao longo da sua vida. Paralelamente ao seu trabalho e à sua actividade como executante na Banda Filarmónica de Mira, João Oliveira teve algumas iniciativas e impulsionou e participou em projectos de valor para a cultura do concelho. Aos 17 anos criou juntamente com os colegas Dario Ribeiro Simões, João de Miranda Rei e José Augusto dos Santos Migueis o grupo Jazz “Os Marujinhos”, sendo este grupo fundado a 7 de Agosto de 1935 e tendo a sua primeira atuação no dia 8 de outubro do mesmo ano. Partilhou o seu conhecimento e deu o seu contributo no Folclore nos Ranchos “Flores da Nossa Terra”, “Flores e Vida” e mais tarde na pesquisa e recolha de cantares e danças tradicionais da nossa região no Grupo Folclórico da Casa do Povo de Mira ao qual esteve sempre ligado. Destacou-se também na organização de outros grupos musicais do concelho como os “Águias” e “Miramar”. Entrou em vários Cortejos dos Reis, Contradanças e foi sempre um amador muito distinto no teatro, entrando em diversas peças com papéis preponderantes e de muito relevo, tendo também à sua responsabilidade a parte musical. A 14 de Fevereiro de 1940 o Maestro Jorge Augusto de Carvalho pede a sua demissão e antes de abandonar a Filarmónica reúne com o Contramestre João Rodrigues Távora e outras entidades responsáveis e confia a Regência da Banda Filarmónica Ressurreição de Mira ao seu discípulo muito dilecto, João Maria Marques de Oliveira, que contava apenas 23 anos de idade. João Oliveira aceita o cargo de regência da Filarmónica com a condição de não usufruir de um vencimento mensal por contracto pois sempre acompanhou e sentiu de perto as dificuldades da instituição a nível financeiro (muitas vezes os executantes deixavam de receber em beneficio da mensalidade dos maestros). Sentia-se bastante satisfeito apenas em poder ajudar, transmitindo tudo o que tinha aprendido com os seus mestres, fazendo-o com muito empenho e dedicação, e isso bastava-lhe, visto que além disso tinha o seu trabalho que o poderia sustentar. Passaram-se 19 anos e em 1959 a Filarmónica volta a debater-se com algumas dificuldades, nomeadamente a falta de instalações adequadas e apoios para a manutenção e compra de instrumentos, pelo que suspendeu a sua actividade durante 18 anos. Em 1977, João Marques de Oliveira, foi convidado pelo Presidente da Casa do Povo de Mira, senhor Homero da Rocha Gabriel para reconstituir a Banda Filarmónica. Cedendo ao desafio, que não era nada fácil, comprometeu-se somente por seis meses e no final desse tempo, tal como tinham combinado, o senhor Presidente contrataria um músico militar que levaria por diante o seu trabalho, este seria o acordo. A 4 de Junho de 1977 realizou-se o primeiro ensaio da Banda Filarmónica Ressurreição de Mira e a 11 de Setembro faz a sua estreia oficial em público. A 8 de Janeiro de 1978 reiniciou a sua atividade, na Festa da Nossa Senhora da Conceição na Praia de Mira. Assim, graças ao empenho de todos os músicos mais velhos e esforço e vontade dos mais novos e apoio quer da Casa do Povo e da autarquia, ressurgiu a Banda com grande sucesso e orgulho de todos. João Oliveira foi convidado a ficar para dar continuidade ao seu trabalho e desempenhar mais uma vez as funções como maestro. Em 21 de outubro de 1979 foi-lhe feita uma festa de homenagem, pelos 50 anos de actividade cultural, ao serviço do concelho. A 9 de Janeiro de 1980, passados 18 anos, menos 1 dia, do falecimento do seu sobrinho Octávio Palmela, João perde o seu filho mais velho, José Octávio, ambos grandes músicos. A vida tem destas coisas e já não foi a mesma até aos últimos dias da sua vida. E foi a Música que conjuntamente com o apoio da família e amigos o ajudou nessa dura caminhada. Passaram-se dez anos de muito trabalho, força e vontade por levar em diante o bom nome desta instituição a que sempre esteve ligado. Aos 16 dias do mês de Abril de 1987 pediu a demissão do seu cargo na Banda Filarmónica Ressurreição de Mira. Em Setembro de 2007 foi homenageado por todos os seus aprendizes, tendo estes executado uma obra da sua autoria em forma de agradecimento por toda a sua dedicação e empenho. Faleceu a 4 de Janeiro de 2009, pelas 10 horas e 20 minutos, numa manhã de domingo. Deixou como legado um vasto reportório da sua autoria e um grande conhecimento musical através daqueles que contactaram com ele. Atualmente grande parte dos seus descendentes continua ligada à actividade musical na sua terra acarinhada continuando o seu legado, mais precisamente a sua neta, formada em música na área de direção, teoria e formação musical, sendo esta maestrina do Grupo Coral de Mira e da União Músicos de Mira.

(coligido dos seus manuscritos,cedidos pela sua filha Isabel Oliveira).

Mário Caiado

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