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OPINIÃO: EXTREMISMOS E INFELICIDADE

Opiniao

Há pessoas que são muito extremistas. Não basta serem apenas extremistas. São do tipo: ou tudo ou nada! Dificilmente escolhem o meio-termo. Dificilmente escolhem o equilíbrio. Querem caminhar sempre nos extremos. E sofrem muito por causa disso. Têm muita dificuldade em escolher o meio-termo. Até em termos financeiros são desequilibradas. Ou poupam demais, e não aproveitam a vida. Ou aproveitam a vida e não poupam dinheiro nenhum, andando sempre à rasca, na corda bamba. Chega a parecer que têm alergia e aversão ao equilíbrio. Ao caminho do meio. Tão incentivado pela filosofia budista, e até por Aristóteles. Até em termos político-sociais isso se verifica. Podendo até ser violentas. Tendo uma opinião, nunca a colocam em causa. Ou dão passos de gigante, ou não aceitam dar passos pequenos. Como se as grandes conquistas da vida, não fossem conquistadas todos os dias, passo a passo. Ou conseguem uma coisa na hora, ou nem sequer investem para a conseguirem. É sempre, ou oito ou oitenta. Não aceitam o “quarenta”, não aceitam o meio-termo. O que em alguns casos ou momentos da vida pode ser crucial, necessário, em outros poderá ser fatal. Se estão a andar depressa demais, quando conduzem um carro, e alguém que esteja com eles no carro pedir por favor para irem mais devagar, por, além de estarem a conduzir de forma ilegal e “criminosa”, poderão estar a pôr desnecessariamente vidas em risco, dizem que não querem ir “a pastar”, como se, ou fossem muito depressa ou tivessem de ir muito devagar. Como se não houvesse o caminho do meio. Dando muitas vezes respostas relativamente falaciosas. Por terem pensamentos falaciosos, sem se aperceberem, de forma inconsciente. 

São muitas as circunstâncias possíveis em que o extremismo causa a infelicidade, a desgraça, a guerra. Há até expressões do tipo: “ou estás comigo, ou estás contra mim”. Num, por vezes, desespero falacioso, manipulador. No mundo académico chega-se a criar a ideia falaciosa de que ou se é a favor da praxe ou se é anti praxe. Como se não pudesse haver o meio-termo. Pode-se não se ser a favor de algo, mas também não se ser contra. Pode-se ser a favor de alguns pormenores, e não se concordar com outros. Pode-se concordar com alguns pormenores de uma determinada ideologia, e não se concordar com outros. Não se tem de discordar totalmente e sendo-se completamente contra, só porque se discorda com alguns pormenores. Isto, embora possa ser de simples compreensão, para muitas pessoas é extremamente difícil de pôr em prática, em determinados contextos da vida. De forma inconsciente. Por vezes por causa de uma questão de educação, de falta de educação. Por vezes, por causa dos apegos e bloqueios intelectuais, por causa de desequilíbrios emocionais e intelectuais. Por causa da falta de reflexão e prudência intelectuais. 

Há pessoas que simplesmente não páram para se questionarem, para se colocarem em causa, para procurarem as hipotéticas incongruências nos próprios pensamentos e crenças. E na relação entre as próprias crenças e as próprias ações. Como se agissem apenas em piloto automático. Como autómatos. Imitando o meio envolvente, por muito incongruente e pouco ético que seja. Criam ídolos e seguem-nos de forma extremista. Se desenvolvem uma crença têm de impô-la. Não a sabem simplesmente ter para si mesmas. Se a julgam correta, acham que as outras pessoas só estarão absolutamente certas se a julgarem de igual forma. O que acaba por poder gerar mil e uma formas de conflitos. Ora, qualquer forma de conflito, de violência, tem características infelicitárias. O “extremismo”, no pior sentido do termo, acaba por ser, acaba por gerar, uma filosofia de vida extremamente infelicitária. E não é isso que se quer. 

Passar a vida inteira a trabalhar para amealhar dinheiro, e dificilmente dedicar tempo para aproveitar a vida com ele, pode ser uma forma de extremismo. Há pessoas que compram coisas muito caras, com o objetivo de as usar em “ocasiões especiais”, e por vezes acabam por falecer, passados muitos anos, sem nunca as usar. Tendo tido muitas “ocasiões especiais” na vida, sem nunca as valorizarem como tal. Acredito que isto também possa ser visto como uma forma de “extremismo”. Talvez não tão violenta como muitos chegam a realizar-se. Mas infelicitária, na mesma. 

Uma pessoa passar a vida inteira a trabalhar para ganhar dinheiro, sem nunca trabalhar-se a si mesma, dedicando tempo, energia, recursos, para se conhecer a si mesma, para se resolver interiormente, emocionalmente, para se desbloquear afetivamente e sexualmente, cultivando-se também em termos intelectuais, éticos e espirituais, pode estar a viver uma forma de “extremismo” infelicitário. O contrário também poderá ser profundamente infelicitário. A filosofia budista incentiva o caminho do meio, entre o “ascetismo” e a sustentabilidade física. O que acredito que possa ser profundamente benéfico para todas as pessoas. Até no Relatório Mundial da Felicidade realizado pela ONU, de 2012, menciona estas questões da filosofia budista e Aristotélica. Acerca da importância do equilíbrio, do meio-termo, para a felicidade individual e coletiva. Citando-as diversas vezes. 



Capítulo da obra “Reflexões filosóficas sobre a felicidade Todos os Volumes” (Chiado Books, 2021). Autor Filipe Calhau.

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Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

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