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OPINIÃO: ERROS MEUS, MÁ FORTUNA, SISTEMA INCOMPLACENTE

Opiniao

Tenho muita sorte por ter uma casa e por conseguir pagar as contas da luz e do supermercado, pelo menos por enquanto. Não tenho vergonha de admitir que recebo ajuda: os meus pais deram-me a casa; os sogros dão um grande apoio também pois, quando nascem filhos, as despesas e as tarefas disparam.

Tenho realmente muita sorte em ter um teto. Mas ter uma casa não devia ser uma questão de fortuna.

Na cidade onde vivo e trabalho, o Porto, cada vez vejo mais pessoas em situação de sem-abrigo.

Vejo pessoas de todas as idades, homens e mulheres, portugueses e imigrantes. Não consigo tirar os olhos dos jovens a dormir na rua, ninguém devia enfrentar um infortúnio deste tamanho tão cedo…

É difícil imaginar a vida de uma pessoa sem casa, sem apoio familiar, sem trabalho. Como se sai deste ciclo? As situações de violência, sofrimento e humilhação devem ser desesperantes.

Numa zona endinheirada da cidade por onde costumo passar, costumava dormir num jardim um jovem com os seus 25 anos. Tinha montado uma tenda perto de um semáforo e saltava à vista o cuidado com que mantinha a sua casa.

Um dia a tenda desapareceu. Contou que os Serviços da Câmara Municipal do Porto (CMP), acompanhados pela PSP ou Polícia Municipal (não sei precisar) tinham violentamente levado todos os seus pertences.

Pensei tratar-se de um caso pontual de “excesso de zelo” das autoridades que patrulham uma zona rica. Mas infelizmente não é a única pessoa a testemunhar este procedimento no Porto. A funcionária de uma loja da Baixa contou-me que os funcionários municipais, de tempos em tempos, levam com eles as casas improvisadas daqueles que ocupam as portas das casas e comércios no centro da cidade. Uma limpeza.

Porém a olho nu, cada vez há mais pessoas a viver nas ruas do Porto ou em prédios abandonados. Os dados oficiais corroboram. No jornal Público de 21 julho deste ano, num artigo de André Borges Vieira e fotografia de Paulo Pimenta, pode ler-se que “entre 2020 e 2021 o número de pessoas em situação de sem-abrigo na cidade aumentou de 590 para 730”. A perceção das associações que estão no terreno é a de que o número continua a aumentar.

Os motivos pelos quais as pessoas chegam a uma situação tão vulnerável são diversos, com toda a certeza. Podia ser eu, caso não tivesse a sorte ou o amparo. Sim, porque erros e desvios no percurso, quem não os vive? Erros meus, má fortuna.

Dentro da diversidade de pessoas e histórias dos moradores da rua, há algo em comum: o direito a uma vida digna apenas porque se nasce humano. O sistema individualista faz crer que o fracasso é uma responsabilidade meramente individual e com isso se alimenta o sofrimento e a violência. A precariedade, o desemprego ou a gentrificação são instrumentos violentos de uma organização social global que coloca como valor central o pilim, o guito, o deus dinheiro. Erros meus, má fortuna, sistema incomplacente.

A ajuda humanitária, perante este grau de debilidade, é fundamental: casa, pão, roupa, higiene. Mais difícil, mas tão importante quanto aquela, é apoiar as pessoas para que se fortaleçam internamente e consigam fazer escolhas e traçar projetos para a sua vida.

A sociedade civil organizada no Porto dá uma resposta assistencial muito importante, são muitas as associações, as voluntárias e os voluntários. A CMP deu a conhecer em junho de 2020 um documento denominado “Estratégia para a integração das pessoas em situação de sem-abrigo”, disponível para consulta no site da câmara, que defende a intervenção num modelo integral em áreas como a saúde, o emprego, a alimentação, a habitação.

Mas o Porto generoso, que tão bem acolhe quem o visita, está a falhar a estas pessoas, que continuarão a aumentar em número à medida que as dificuldades económicas se intensificam para a maioria da população e o individualismo desintegra as relações sociais.

A estratégia da CMP é claramente insuficiente, basta um olhar para ver.

É preciso uma ação urgente, integral e com um olhar humanista sobre as pessoas e os problemas da cidade, que envolva os seus habitantes, onde quer que eles durmam.

E tenho a certeza de que, disposta a ajudar, nesta cidade, haverá muita gente.

Maria Vítor Mota. Membro da Convergência de Culturas, organismo do Movimento Humanista

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