Scroll Top

CAIS DA MEMÓRIA: COM 83 PRIMAVERAS CONTADAS, DOS CARAPELHOS À LENTISQUEIRA E DUAS MÃOS CHEIAS DE FORÇA

Cais da memória

Era ainda madrugada, alumiada a petróleo a marinhôa foi posta ao carro e, por instinto já adivinhava o caminho até ao sul da aldeia, de encontro ao lamaçal que havia por infinitos solavancos de nos levar a terras das Quinta Torres, no Colmeal. A força do animal, mais a robustez da carroça, eram meio caminho andado naquele mar de lama e bosta. À ordem, o animal ensinado tudo entendia.  A corda, enrolada e dependurada no primeiro fogueiro, mais o saco capuz, de vez em quando caiam e ficavam para trás, na expectável imediata recolha. -Eh-che-vaca…anda malhadiça …. Assim se trabalhou o século que deu ternura e pão à Gândara, sem que uma justa homenagem local perpetuasse os cavadores, lavradores, cereareiros, a juntar aos ferreiros, construtores de Alcatruzes e engenhos!… Ainda hoje ouço o eco percutor dos martelos nas bigornas. As camionetas dos cereareiros, essas, já muitas horas antes haviam deixado a aldeia rumo a Lisboa. A força de pés descalços e mãos sem luvas, ao rego, à cova, ou à manta, eram poucas as pegadas de leira, outros trejeitos de mãos, ” maior o dia, maior a romaria”. Agora, já a charrua das juntas de bois, mais a rabiça do arado, atirados de malhão morto por entre combros escangalhados, comprometem a ruralidade sem horizontes de lavradio, nem outra pouca vida que, também assim dispensa o jus, ao velho toque das trindades. A ceia, deixou de ser ritual de meia-noite e, nos poços já não se conta a lenda da Maria da Grade. São já poucos os que conhecem as ervas: a junça, felga, grama, a milhã e o alcarnache. A alfavaca da cobra, o hipericão, os chás das mezinhas das gripes, o escalda pés da deitada, a inxunda da galinha terapêutica do tesorelho ou os pachos de água fria à varicela. Já ninguém arranca uma Leiva a pulsos. Já não há batatas “rambanas só pra gente” e, o turismo veio ao encontro das ruínas de um tosco povoado. Você, Celeste, repetia vezes sem conta: -Vai estudar menino …vai estudar! Estou a falar da Celeste do Silvino que, nasceu em julho de 1939, chegou à Lentisqueira com 22 anos em 1961, casou em 1963 e nessa década foi Mãe de dois filhos. Lembro-me do namoro deles, à noitinha ao Borralho, onde uma lâmpada já elétrica, recém-inaugurada, iluminou o romance de duas vidas, enquanto a minha Avó, a Ti Rosa Pedreira, lhes chegava os tiços, que haviam de fazer levantar fervura aos cozinhados dos aromas ao Borralho. Para além disto, é descansar num abrir e fechar de olhos, a residir no Lar da Santa Casa da Misericórdia em Oliveira do Bairro, até que neste Celestial, de tantas Celestes, reinem entre nós desejos de um universo pacífico de bons sonhos, onde a gratidão, na intemporalidade alcance o domínio da terra que criou, amou e engrandeceu. Saudações Celeste. Salvé.

Domingos Neto

Posts relacionados