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OPINIÃO: A RELAÇÃO ENTRE A LIBERDADE INTELECTUAL E A AUTOESTIMA

Opiniao

Haverá alguma relação entre a liberdade intelectual e a autoestima? Eu acredito que existe uma profunda relação entre a liberdade intelectual e a autoestima. Acho que não é muito descabido afirmar que acredito que a autoestima é uma condição de possibilidade da liberdade intelectual. Sem autoestima, não é possível a existência de uma verdadeira liberdade intelectual. 

Entre outras coisas, autoestima é uma questão de independência emocional. E a independência emocional é uma das condições de possibilidade da independência intelectual. Sendo a independência intelectual uma das principais características da liberdade intelectual.

De que forma é que a falta de autoestima condiciona profundamente o exercício da liberdade intelectual? De muitas formas. Uma pessoa sem autoestima é uma pessoa com dependência emocional. Depende emocionalmente das outras pessoas. Essa dependência é uma forma de compensação (inconsciente) da falta de autoestima. Uma pessoa sem autoestima depende emocionalmente da valorização, aceitação, atenção, amor e reconhecimento de outras pessoas para se sentir bem consigo mesma. Sem autoestima, as pessoas acabam por ter como prioridade inconsciente, tentar satisfazer as expectativas que as pessoas possam ter de si. Principalmente diante as pessoas em que se possa depender emocionalmente. Uma pessoa sem autoestima acaba por viver em função do medo da rejeição. Medo da rejeição das pessoas diante quem se possa depender emocionalmente. Não se sentir rejeitado acaba por ser uma das prioridades inconscientes. Para não se sentir rejeitada, a pessoa acaba por tentar fazer de tudo para satisfazer as expectativas que possam ter de si. Isso implica muitas vezes, abdicar-se daquilo que se pensa. Uma pessoa sem autoestima acaba por viver sempre com medo de pensar, fazer, dizer e ser, algo diferente daquilo que as pessoas de quem depende emocionalmente possam desejar, esperar. Para satisfazer expectativas as pessoas vão criando alter-egos. Tudo para não se sentirem rejeitadas. É o medo da rejeição, que existe quando não há autoestima. Há pessoas que têm tanto medo de ser rejeitadas, que acabam por ter medo de pensar. De questionar, de colocar em causa. Criando dessa forma, bloqueios e apegos intelectuais. São esses bloqueios que acabam por condicionar o adequado exercício da liberdade intelectual. 

O ato de pensar, de questionar, de colocar em causa, não poder ser o ato do medo, não pode ser o ato que se realiza em função do medo. É esse medo que gera o “conservadorismo intelectual” decadente. As pessoas, com um profundo medo da rejeição, por causa da falta de autoestima, tornam-se reféns do próprio medo, tornam-se escravas do próprio medo. A prioridade acaba por ser não se sentirem rejeitadas, ao invés de ser: pensar livremente. O pensamento acaba por acontecer de “fora para dentro”. Da “satisfação das expectativas para o que se deve pensar”. Ao invés de acontecer do simples dever de pensar, questionar e colocar em causa. 

Sem autoestima as pessoas acabam por viver como autênticos “macaquinhos de imitação”. São, fazem, pensam e dizem aquilo que acreditam que as outras pessoas gostariam de ouvir. Principalmente as pessoas de quem se depende emocionalmente, de quem se tem medo da rejeição. Quanto menos autoestima, mais medo, mais bloqueio intelectual, menos liberdade intelectual. É mais ou menos esta a sequência. O mundo académico, (mas não só) estando cheio de pessoas sem autoestima, acaba por estar cheio de “macaquinhos de imitação”. Os académicos estão muitas vezes mais concentrados em mendigar reconhecimento do que em serem, fazerem, pensarem e dizerem aquilo que verdadeiramente sentem. Isto envolve grandes “intelectuais”, grandes “filósofos”, grandes “cientistas”… Por causa da falta de autoestima, o mundo académico pode tornar-se um mundo profundamente conservador. Onde se pode ter muito medo de explorar novas ideias, onde se tem medo de questionar paradigmas dominantes. Em todas as áreas. Sem liberdade intelectual, onde há medo de se ser rejeitado pelos outros, o académico acaba por se tornar um “cobardolas”, um “android”. A verdadeira inovação e progresso poderão estar profundamente condicionadas. O mundo académico não deve ser um palco de “imitação” e satisfação de expectativas. 

Quando Abert Einstein realizava ciência, a sua prioridade não poderia ser o reconhecimento imediato dos outros cientistas. Principalmente havendo muitos cientistas apegados à física Newtoniana. A sua prioridade tinha de ser fazer o seu trabalho. Com liberdade, com criatividade. Assim, simplesmente. Há muitas pessoas que deixam de pensar naquilo que devem pensar, deixam de fazer aquilo que acreditam que devem fazer, e deixam de dizer aquilo que acreditam que devem dizer, pois não têm autoestima, pois têm um profundo medo da rejeição dos pares. Há pessoas que têm medo de explorar ideias que poderiam ser o “futuro positivo da humanidade”, por medo da rejeição. Têm medo de ser rotuladas de “malucas”. Têm medo de ser ridicularizadas.  Este medo do ridículo é o medo da rejeição. Neste sentido, uma pessoa também não se deve levar tão a sério. O mundo não avança, o progresso positivo não acontece, com a mera imitação dos outros, com a mera satisfação das expectativas dos outros. A liberdade intelectual precisa de rebeldia, precisa de ousadia, precisa de coragem. Precisa de autoestima. Na minha obra “Individualogia”, o “Ensaio sobre o filósofo maluco”, tem tudo a ver com este tipo de temática. É um hino à liberdade intelectual, à singularidade de cada Individualidade. O medo da rejeição, a falta de autoestima, matam a liberdade intelectual, e por causa disso matam qualquer forma de criatividade. De possibilidade de criação, de inovação, de progresso. Num mundo onde toda a gente glorifica um paradigma dominante, é mais fácil “reconhecê-lo e louvá-lo”, do que questioná-lo, do que colocá-lo em causa. Onde existe medo da rejeição não existe liberdade intelectual. Onde não existe autoestima não existe liberdade intelectual. São portas diferentes. Opostas. Não dá para passar pelas duas ao mesmo tempo. Reflitamos filosoficamente acerca disto. 



Capítulo da obra “Reflexões filosóficas sobre a felicidade Todos os Volumes” (Chiado Books, 2021). Autor Filipe Calhau.

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Canal de Filosofia no YouTube: https://www.youtube.com/c/FilipeFerroCalhau/videos

Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

 

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