Scroll Top

ONDE É QUE ESTAVA NO 25 DE ABRIL DE 1974?

atualidade

Fizemos a pergunta e eles, que viveram o dia, responderam assim:

RUI PATO

Eu era médico militar no Hospital Militar em Lisboa. Vivia com mais 3 colegas, todos médicos militares, numa roulotte no parque de campismo de Monsanto e.…na madrugada de 24 para 25 fomos acordados pelos campistas, aos murros na porta da roulotte a gritarem ” vocês não são militares??? Olhem que os militares estão a fazer um golpe de estado!!!”.

Vestimo-nos a correr e fomos para o Hospital, onde fomos recebidos pela sentinela que mantinha a porta fechada e nos meteu lá dentro à socapa. Depois disso meteram-me numa ambulância com um maqueiro para andar às voltas por lisboa…para estar de prevenção a alguma situação que envolvesse feridos. Ao fim do dia regressámos à roulotte onde os campistas durante o dia escreveram na porta 3 letrinhas apenas: MFA”

MANUEL MARICATO

“Estava em Coimbra e morava na Sé Velha, zona considerada “vermelha” no antes 25 de Abril.

Já estagiava pela Lacticoop, na Cooperativa de Vagos e na fábrica em Sanfins/ Sever do Vouga.”

GRAÇA VILAS

Passava das 8 horas e pouco da manhã quando meu pai me abordou num beijo: “Bom dia! A menina já está despachada para ir para as aulas? Quem a leva hoje ao liceu, sou eu.”
Achei a conversa estranha! Não tinha faltado às aulas e quando os pais me tratavam por você, era porque o assunto era grave, muito grave! Perante esta voz de comando só tinha de obedecer às ordens. No elevador perguntei:
” Papá, o que se passa?”
“Houve um golpe de estado!”
“?? E o que é um golpe de estado??”
Uma adolescente de 16 anos fresquinhos, ainda não feitos há um mês! O pai lá me explicou o melhor que pôde num discurso adequado à minha idade.
Começámos a subir a rua em direção à avenida Dias da Silva, passámos junto ao quartel da GNR. O pai disse-me baixinho que” estes ainda não se tinham rendido”.
“Como é que o papá sabe?”
“Ouvi nas notícias e o soldado que está na guarita tem uma metralhadora.”
E lá continuamos para começar a descer os antigos Loios em direção ao Liceu Nacional Infanta D. Maria.
Fiquei a pensar na metralhadora! Mas eu nunca tive medo de metralhadoras! Desde que tenho consciência de mim sempre as vi desde pequenina! Lá estavam elas apontadas a quem subia as Escadas Monumentais, por vezes cruzava-me com elas na Praça da República por volta das 16.30 de regresso a casa quando saia do colégio Alexandre Herculano.
As “batalhas” entre estudantes, PSP e GNR.
Quando se nasceu e cresceu num ambiente destes tudo é normal e familiar.
Torcia sempre pelos estudantes. Na minha inocência infantil, era um jogo entre polícias e ladrões ou cowboys e índios.”

ANTÓNIO JOSÉ GALO

Em casa a ouvir o rádio clube português desde as 23 horas de 24 de abril e de partida para o liceu. Entrei de rompante (mal-educadamente) no quarto de meus pais gritando liberdade. Caiu o fascismo. Dia único e belo.”

MÁRIO CAIADO

“Era Coimbra e amanhecia…

Nesse tão presente dia de 74, com 20 anos, frequentava o 3º ano de germânicas, em Coimbra.

Pelas nove e quarenta e cinco da manhã, tirava apontamentos numa folha de papel almaço numa aula de Literatura Americana, com a Professora Irene Ramalho, num anfiteatro da FLUC. Falava-se de “Sister Carrie”, romance de Theodore Dreiser, que conta a história de uma camponesa que consegue o milagre americano, indo de prostituta a atriz.

De repente, o saudoso Boia, nosso colega, sempre atrasado e tão cedo retirado do nosso convívio pelos deuses, entra esbaforido na sala a gritar:

“Vamos embora já, as tropas de Tomar estão a cercar Coimbra. Vai haver molho!”

Perante tal visão de um colega fora de si, os olhos esbugalhados e sem sabermos o que fazer, optámos por seguir o seu conselho. Saímos de roldão, e já no pátio entre a Faculdade de Letras e a Biblioteca Geral, umas centenas de estudantes, professores e outras pessoas se juntavam em busca de notícias, que iam chegando a conta gotas.

Descemos as Monumentais até à Praça da República, que era o nosso quartel-general, sempre em busca de novidades. Que chegaram com os vespertinos vindos de Lisboa, o DL e o DP.

Houve manifestações de alegria transbordante, pessoal a abraçar-se e a ensaiar umas palavras de ordem, risos e choro (de alegria) por podermos enfim respirar a Liberdade há tanto ansiada e pela qual tantos sofreram e perderam a vida.

Viva o 25 de Abril! Sempre!”

HELENA BARROS

Na manhã do 25 de Abril de 1974, eu estava na cidade da Guarda.

Tinha 15 anos, andava no 6.º ano de escolaridade (atual 10.º ano) e ia para as aulas, quando dois colegas nos anunciaram, à entrada dos portões do Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, que aquele era um dia de Festa, o DIA DA LIBERDADE, e que não haveria aulas.

Voltámos para casa e rádio e televisão não paravam de anunciar a Liberdade dos Cravos e dos capitães de Abril. “Grândola Vila Morena” passou a fazer parte de todos os repertórios musicais!

Foi um dia inesquecível!”

DOMINGOS NETO

 

Era Tavira a minha cidade de especialidade militar e o Cismi, Centro de instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria, instruía os meus 20 anos na técnica física, psicológica e de armas que se propunha travar em nome de Portugal e Colónias. Já havia em mim, de 16 de março no Regimento de Infantaria 5, Caldas da Rainha a vivência dessa primeira tentativa, do golpe militar. Nós, instruendos, apenas servíamos, obrigatoriamente, um tempo de compromisso severo “guerrilheiro”. Terminada a recruta, outros e novas incorporações seriam destino a formar batalhão e embarcar para África. Porém, não veio a acontecer, dadas as independências, das pátrias a que a seu tempo se afirmaram, bem ou mal resolvidas. Dois anos foi o tempo que perdi com o serviço militar, que pressupostamente seriam 3 anos e mais 3 meses, terminando pela Região Militar do Sul, no Regimento de Infantaria 16. em Évora , cidade onde nem tudo se perdeu ,antes tirando partido da vida na acolhedora cidade Alentejana ,onde a força da juventude e do mítico Geraldo Sem Pavor ,nivelaram o sacrifício ,a coragem e o valor das ilações de Abril a que o sul , concretamente o Alentejo ,pode acrescentar cívica e culturalmente mais “além” ,em mim e na sociedade civil ,através das variadíssimas ações/operações lideradas pelo M.F.A. ( Movimento das Forças Armadas ) que tenho de reconhecer como a melhor escola temporal da minha vida. Saudades muitas. Abril, a Sul. Abril, ao Alentejo. Obrigado. VIVA, para sempre a Revolução dos Cravos.”

LUÍS AUGUSTO ISIDORO

Tinha terminado as minhas obrigações militares no dia 7 de abril, ao fim de sete anos seguidos na frota bacalhoeira, num tempo em que a vida dos pescadores e grumetes, a bordo, era muito próxima da escravatura: trabalho sem limite de horário, comida miserável, maus tratos (até chicote vi ser usado numa altercação entre dois irmãos pescadores do Norte (Cachinas ou por aí). Tinha retomado o meu emprego no Escritório dos Serviços Florestais (Regência), como lhe chamavam e era amplamente conhecida. Morava no Ramalheiro e cheguei à Regência, como de costume, perto das 9 horas na minha motorizada ILO. Os colegas começaram a falar de que havia problemas em Lisboa, mas não se sabia ainda bem do que se tratava. Só com o decorrer do dia fomos tomando conhecimento do Golpe e Revolução. Eu tinha 27 anos e uma filha nascida em 1968, comigo no mar, sem ter podido ajudar a Arsénia nessa circunstância tão complicada como foi esse parto. Mas todos esses sacrifícios foram suavizados com a esperança em tempos mais justos que aquele dia augurava. Hoje posso dizer que valeu a pena. Liberdade, Democracia, Responsabilidade. Direitos sociais e humanos. Fascismo nunca mais. 25 de Abril sempre.”

…e estes, ou com pouca idade ou que não viveram o dia, assim.

 

FERNANDO BARRETO

“Em Mira no Colégio Dra Maria Cândida.”

BRIGITTE CAPELOA

“Era aluna da primária e estava na Escola das Cabeças Verdes.”

MARIA TERESA FLORES

“Em Anadia. Andava no 2º ano do liceu.”

Posts relacionados