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O PROBLEMA FILOSÓFICO DA MÁ INTERPRETAÇÃO

Opiniao

A má interpretação, além de condicionar simplesmente a compreensão da realidade, das diferentes perspetivas, também condiciona a capacidade de cooperação entre as pessoas. O que, além de afetar simplesmente as relações interpessoais, também poderá afetar a partilha de ideias no enquadramento científico, institucional, diplomático e político. A comunicação deve pressupor a boa compreensão entre os pares, o que só é possível através da boa compreensão. Neste sentido, interpretar deverá ser: procurar compreender. Procurar compreender seja o que for. O grande objetivo da interpretação deverá ser a compreensão. Dificilmente se poderá pensar e realizar um mundo onde as pessoas vivam em harmonia, sem que as pessoas se interpretem bem, sem que as pessoas se compreendam e, com isso, possam cooperar adequadamente. 

O que é que poderá levar uma pessoa a interpretar mal (seja o que for)? Há dois grandes fatores: capacidade e vontade. Quando uma pessoa não interpreta bem algo, não interpreta bem por duas grandes razões: porque não consegue e porque não quer.  Pode conseguir, mas não querer. Pode querer mas ainda não conseguir (por falta de conhecimentos, por exemplo). Pode não querer e ainda não conseguir. Pode querer e conseguir. 

Há também duas principais realidades a acontecerem ao mesmo tempo que se interpreta algo. A realidade consciente e a realidade inconsciente. Quando uma pessoa não quer interpretar bem algo, por norma, fá-lo de forma inconsciente. E o que é que poderá levar alguém a não querer (inconscientemente) interpretar bem algo? O ego. Que é um «sistema de sobrevivência», uma atitude mental inconsciente, um mecanismo que serve para se fugir da dor e da morte na imediatidade. Portanto, sempre que alguma coisa, uma nova informação, por exemplo, puder provocar alguma dor, algum desconforto intelectual, na imediatidade, inconscientemente a pessoa pensa em fugir, ou simplesmente pensa em interpretar mal, pois poderá ser mais “confortável” interpretar mal algo, distorcendo e denegrindo, do que interpretar bem, e com isso, ter, por exemplo, de colocar o próprio sistema de crenças em causa, tendo de colocar em causa crenças e hábitos em que poderá estar apegada. Ora, as pessoas interpretam mal, por vezes porque não têm conhecimentos relativos suficientes para interpretarem bem, por uma questão simples de ignorância, o que só será resolvido caso resolvam essa mesma ignorância, caso tenham vontade para o efeito, mas também porque não querem interpretar bem (de forma inconsciente), por dar “mais jeito” continuarem a pensar da mesma maneira. Interpretar bem algo, compreender bem algo, pode ser desconfortável, pode ser mais desconfortável do que interpretar mal, de forma insuficiente, por isso é que inconscientemente, por vezes, as pessoas preferem interpretar mal. 

Imaginem duas pessoas diferentes, com hábitos e crenças diferentes, mas com alguma forma de relacionamento, em que precisam de cooperar para o bem comum. Como é que elas poderão relacionar-se em harmonia se ambas estiverem profundamente apegas às próprias crenças e hábitos, elevando-as a condição de superioridade? Sem boa fé, sem tentativa de compreensão, sem respeito e sentimento de igualdade, nunca poderão cooperar adequadamente em nome do bem comum. Portanto, a má interpretação (intencional mas inconsciente), além de condicionar o desenvolvimento da própria consciência e felicidade de quem a realiza, por não se ter abertura consciencial para novas experiências e ideias, para se colocar em causa o próprio sistema de crenças, também condiciona qualquer forma de relacionamento interpessoal. E com isso, condiciona qualquer necessidade de compreensão e cooperação. 

O problema filosófico da má interpretação enquadra-se no problema filosófico da verdade, o que é um problema filosófico por excelência. Não se trata de saber apenas o que é a verdade e se é logicamente possível chegar-se à verdade absoluta. Trata-se da necessidade de compreendermos que nem sempre se quer a verdade, e por causa de condicionamentos inconscientes. Criados pelos apegos e bloqueios intelectuais. O que afeta até a atividade científica. Que deve primar pela busca da verdade. Sustentada pela lógica e pela experiência. 

De forma inconsciente, os bloqueios e apegos intelectuais, que prendem as pessoas à mesmice dos sistemas de crenças, muitas vezes falam mais alto do que a busca pela compreensão, do que a busca pela cooperação, do que a busca pela verdade. Além dos outros interesses relacionados com o dinheiro, o poder e o estatuto social, que também costumam estar em causa. 



Capítulo da obra “Reflexões filosóficas sobre a felicidade Todos os Volumes” (Chiado Books, 2021). Autor Filipe Calhau.

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Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

 

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