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O PREÇO DO PROGRESSO

Opiniao

A linha de alta velocidade (LAV) está na ordem do dia.

A Bairrada vinhateira vai ser castigada com mais uma intrusão ao longo do seu território. As pequenas aldeias vão sofrer os impactos resultantes da abertura de uma ferrovia que as atravessará, largas parcelas de vinha estão ameaçadas, a paisagem vai ser perturbada.

O Concelho de Anadia, em especial, tem visto concentrações e movimentações e subscrito abaixo-assinados, numa tentativa, muito provavelmente inútil, de parar a LAV, ou extemporânea de a fazer deslocar para outra região do país, onde, alegadamente, terá menos impacto sobre as populações e o território. 

Tal como a lebre da fábula, os Anadienses acordaram tarde e não conseguem apresentar alternativas viáveis perante uma realidade inevitável.

 

A ferrovia é uma realidade incontornável e há muito que o nosso país deveria ter enveredado por uma alternativa mais rápida, mais económica e menos poluente às autoestradas e ao transporte movido a combustível fóssil. 

A febre das autoestradas que se iniciou com a entrada no nosso país dos fundos milionários da União Europeia, colocou Portugal na quarta posição a nível europeu em relação aos quilómetros de autoestrada, subindo para segundo lugar se essa comparação tiver em conta o número de habitantes de cada país. 

Já no que à ferrovia nacional diz respeito, Portugal está no antepenúltimo lugar na Europa em contra ciclo com a maioria dos países europeus que têm mais quilómetros de ferrovia por milhão de habitantes do que de autoestradas.

De notar que os cerca de 3.500 km de ferrovia existentes em 1952 não viram qualquer alteração significativa e que, entre 1990 e 2008, a quota de mercado do transporte ferroviário caiu 66%. Entre as causas para a perda de passageiros e no transporte de mercadorias por via férrea em Portugal está o encerramento de muitas linhas complementares, que alimentavam as linhas principais, a falta de investimento no setor ferroviário e o investimento excessivo na construção de autoestradas que passaram de 160km (em 1984) para mais de 2.500 km no momento atual. 

 

Estou solidária com aqueles a quem a LAV irá rasgar o quintal, derrubar a casa ou separar dos vizinhos e amigos. 

Mas o progresso é surdo, cego e mudo perante o indivíduo quando o interesse coletivo está em jogo.

Arrasaram-se as casas da alta Coimbrã e deslocaram-se os Salatinas quando na década de 40 do séc. passado se construíram os edifícios da universidade, concentrando o ensino universitário nas imediações dos Gerais. 

Realojaram-se os habitantes da velha Aldeia da Luz submergida quando se construiu a barragem do Alqueva.

 

Os impactos negativos da Linha de Alta Velocidade não são “um mal menor”. São sim sacrifícios individuais para “um bem maior”. 

É o progresso a fazer as suas vítimas em nome do bem-estar coletivo.

É que, como muitos criticam, não se trata (ou não se deverá tratar) da redução em 20 minutos do percurso entre o Porto e Lisboa. 

Se bem utilizada, esta linha pode potenciar, juntamente com a Linha do Norte e todas as outras ligações que posteriormente se efetuarem, o regresso a Portugal de um meio de transporte de pessoas e mercadorias mais rápido, mais amigo do ambiente e que verdadeiramente nos ligue e ligue o nosso mar e os nossos produtos à Europa numa verdadeira União Europeia que instituiu 2021 como o “Ano da Ferrovia”. 

Maria de Fátima Martins da Costa H. Flores

Professora aposentada, militante do Partido Ecologista Os Verdes, eleita pela CDU na Assembleia de Freguesia de Arcos e Mogofores (Anadia)

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