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MUNICÍPIO DA MEALHADA ATRIBUI PRIMEIRA EDIÇÃO DO “PRÉMIO MARIA DA NÓBREGA”

DO OUTRO LADO

O Município da Mealhada vai entregar, esta quinta-feira, 18 de abril, às 18h, na Biblioteca Municipal da Mealhada, as distinções do Prémio Maria da Nóbrega, um prémio bienal na modalidade de contos. O prémio, que procura homenagear uma das mealhadenses mais progressistas do séc. XX, foi atribuído ao conto “Bussaco Ilustre”, de Jaime Freire.

 

“Bussaco Ilustre”, de Jaime Freire é o conto vencedor desta edição, premiado com um valor pecuniário de 1000 euros. O júri, constituído por António Breda Carvalho, Clara Macedo Cabral e Miguel Midões, considerou que o conto se firma numa linha de modernidade no que concerne ao processo narrativo, recorrendo a um registo linguístico sem empolamento literário, mas resguardado da banalidade, consubstanciando referências culturais e reflexões que entroncam na natureza humana. A história vai-se construindo fora e dentro de uma filmagem que, imprevistamente, se desvia do guião, acabando por não se concretizar enquanto projeto fílmico. História que filma um filme inconsequente e mostra fora dele vidas humanas tão inacabadas e falhadas como o próprio filme, onde a única glória, que secularmente vai perdurando, talvez pertença à Natureza, ou seja, ao Bussaco.

O júri distinguiu ainda o segundo e terceiro prémios, bem como três menções honrosas. O segundo prémio foi atribuído a “Enganos do bosque”, de José Manuel Batista Rodrigues. O conto alia o rigor histórico e artifícios literários para habilmente reconstruir o tempo em que a Mata Nacional do Bussaco foi habitada pelos monges da Ordem dos Carmelitas Descalços e o Convento de Santa Cruz do Buçaco se manteve em atividade. Bastante detalhado e exaustivo, “Enganos do bosque” convida o leitor a aceder a um espaço contemplativo, de oração e mortificação, revelando como os monges diariamente ali se afincaram em construir uma realidade, tempo e mundo, não contaminado pelo “profano”, e se serviram da natureza como um aliado para a sua mística. O conto não deixa de ter um remate inesperado, através da súbita “visão” / irrupção que um monge tem de uma peregrina, intrusa deste lugar reservado aos homens. Trata-se de Bernarda Ferreira de La Cerda (1595-1644), uma poetisa portuguesa que visitou o Bussaco, que lhe serviu de inspiração para uma obra intitulada Soledades do Buçaco, publicada em 1643, o que deste modo dá sustentação histórica ao final.

O terceiro prémio foi atribuído a “Carta Portuguesa”, de Nuno Manuel Faria da Costa Azevedo. O júri destaca a originalidade da temática da obra, que se ancora na história de uma carta encontrada por Luís Manini, neto de Luigi Manini, o arquiteto que projetou o Palácio do Bussaco, e que reflete uma paixão vivida na sombra da Mata do Bussaco por sua amada Mariana. O conto é desenvolvido numa linguagem erudita e cuidada. A narrativa, ainda que imaginada, é fundamentada com dados históricos corretos, fidedignos e pertinentes (relativos à pessoa de Luigi Manini e à bula papal de Urbano VIII) para o desenrolar da ação.

Dada a qualidade dos contos apresentados a concurso, o júri atribuiu ainda três menções honrosas: “Quando deixei de te esperar”, de Eva Cristina Oliveira Ferreira, “Herculana, rainha do deserto”, de Nuno Filipe Sequeira Rodrigues, e o conto “Eleutério”, de Mário da Silva Carvalho.

Os seis contos serão editados pelo Município da Mealhada no livro “Bussaco: Prémio Literário Maria da Nóbrega – Contos”.

O Prémio Literário Maria da Nóbrega procura homenagear uma das mulheres mais progressistas do início do século XX. Nascida em 1875, na Mealhada, numa família abastada, Maria da Nóbrega dominava com segurança a arte de bem escrever português, possuindo uma formação cultural alicerçada nos clássicos. Iniciou a sua carreira literária no Jornal O Bussaco, em 1902. Em 1925, com as escritoras Ana de Castro Osório e Sara Beirão, passou a escrever nas revistas Eva, Modas & Bordados, Voga e Magazine Bertrand. E em 1930 publica o seu primeiro livro de contos “Fumo nos Casais”.

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