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MEMÓRIA À VOLTA DE ABRIL  

Opiniao

O Júlio e eu conhecemo-nos na faculdade.

Quis o acaso que nos tivéssemos sentado lado a lado numa das muitas assembleias de estudantes realizadas nos jardins da Associação Académica no ano de 1969.

Ficámos amigos. Falávamos sobre política. O Júlio era aluno de direito e a política corria-lhe nas veias.

Filho de um médico cujas opiniões politicas adversas ao regime afastaram da carreira hospitalar pública e levaram para uma aldeia do interior do país onde criava os 3 filhos com muita dificuldade. “João Semana” que de todos cuidava com atenção e cuidado e que, em troca dos seus serviços, era pago em batatas, ovos, galinhas, e carne dos porcos criados pelos mais abastados. O dinheiro não abundava e o que valia ao Júlio era bolsa de estudo dos Serviços Sociais da Universidade de Coimbra.

A adesão à greve aos exames de 1969 e as intervenções políticas públicas levaram-no para a guerra colonial. Deixei de o ver.

E foi novamente o destino que nos fez reencontrar anos mais tarde na escola onde ambos lecionávamos. Eu, curso acabado, fora colocada como professora eventual. Ele encontrara nos mini concursos uma forma de se sustentar enquanto terminava os estudos. “ Agora que o meu pai tem os três filhos a estudar fora de casa, o dinheiro escasseia e eu tenho que me virar”.

Retomámos as conversas de outrora. Agora com muito mais cuidado. E muitas vezes apenas os silêncios e os olhares chegavam para nos manter em sintonia. Em 1972, as escolas, onde “reinavam” os reitores todo-poderosos, onde as paredes tinham ouvidos e todos os olhos estavam em cima de eventuais “agitadores políticos”, não nos proporcionavam a liberdade dos jardins da Associação Académica, ou da mesa do canto no nosso café de eleição na Praça da República. A situação de professores contratados fazia depender a nossa permanência no ensino da opinião dos reitores e de um bom comportamento que não dava tréguas a “devaneios políticos”.

Em janeiro, regressada das férias do Natal, não encontrei o Júlio na sala dos professores nem nos corredores da escola. 

“Lecionar não é fácil e dá trabalho”. “ O dinheiro não lhe faz falta. O pai é médico.” “ Tinha uma namorada rica. Casou. E agora vive dos rendimentos”. Diziam os colegas quando, em chacota, comentavam o seu desaparecimento. 

Não acreditei, mas rendi-me à evidência. Na altura não havia telemóveis nem correio eletrónico e não consegui obter a morada do Júlio. Acabei por esquecer o assunto.

A 26 de Abril de 1974, sentada na sala, assistia, na televisão, à saída dos presos políticos na Fortaleza de Peniche. Na fila da frente, muito mais magro mas com o sorriso mais largo que alguma vez lhe vi, vinha o Júlio. Acenou para a multidão que se aglomerava junto ao portão. Aquele aceno foi para mim também.

O Júlio enveredou pela vida política. O seu trabalho na construção de uma nova era levou-o para Lisboa. De vez em quando um telefonema rápido ou um cafezinho apressado dava para matar saudades. Falávamos da família que construímos, dos filhos que íamos criando, dos netos que entretanto chegaram, dos sonhos e dos desenganos. Continuámos amigos. 

Até que, um dia, o Júlio partiu para sempre. Ficaram as memórias.

Maria de Fátima Flores 

Professora aposentada, militante do Partido Ecologista Os Verdes, eleita pela CDU na Assembleia de Freguesia de Arcos e Mogofores (Anadia)

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