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LUÍS ROSMANINHO NETO:  “OS SUCESSIVOS MINISTÉRIOS NÃO TÊM CONSEGUIDO LIDAR COM OS PROBLEMAS REAIS DAS ESCOLAS E COM AS NOVAS EXIGÊNCIAS”

ENTREVISTAS

Luís Rosmaninho Neto é professor. Mira é a terra onde regressa sempre. Aqui, fala da escola, do ensino. E não só. Fique para ler.



Professor, deste aulas no Norte e no Sul. Falando das regiões, o que te agradou mais e porquê?

Sim, já dei aulas de Norte a Sul. Guimarães, Póvoa de Varzim, Porto, Gaia, Aveiro, Caldas da Rainha, Bombarral, Óbidos, Almeirim, Barreiro, Torres Vedras… posso dizer que de cada um deles trouxe amigos e em cada um deles criei laços. E talvez tenha deixado algo de mim também nesses sítios, porque ali vivi e criei raízes. Sempre que mudo de sítio é um amargo de boca, porque acho que é ali que pertenço. Mas como não é, volto lá sempre que posso para revisitar amigos. Além do ensino, estou também ligado à formação profissional e à formação em empresas, o que me proporciona viagens relâmpago a muitos outros sítios, onde apenas me desloco pontualmente, mas onde nunca vivi. E onde se calhar até gostaria de ter vivido. Falo de Lisboa, por exemplo, ou de várias vilas e aldeias pequenas onde tenho ido. Torna-se difícil dizer o que mais me agrada. Sou um apaixonado pelo nosso país e gosto de olhar atentamente o que cada local tem de melhor e mais bonito. Se tivesse de escolher, talvez dissesse sul. Tenho sempre mais tendência para o sul. Talvez pela luz, pelo sol, pela temperatura, pela forma de falar, pela gastronomia, pela temperatura, por aquela cultura mais aberta e mais de rua. Adaptava-me facilmente a viver no sul do país. Ou em qualquer país do sul. Se me perguntassem uma região, diria Alentejo. Se me perguntassem uma cidade, diria Lisboa. Mas como sei que viver ali permanentemente seria difícil, escolhi as Caldas da Rainha para viver nos últimos anos, que fica perto de todos os outros. De casa, onde regresso todos os fins de semana, do Alentejo para onde fujo de vez em quando, e de Lisboa, onde vou quando preciso de respirar outros ares.

 

As escolas não são todas iguais. Há alguma que queiras destacar?

As escolas não são todas iguais, na mesma medida em que o público-alvo também não o é. Quem faz a escola são os alunos, os pais, os professores, o meio envolvente, o próprio espaço físico onde trabalhamos. E todas estas variantes modificam imensamente a realidade que vivemos. Há zonas que contam com uma realidade na qual nem sempre é fácil trabalhar. O desinteresse é enorme, a realidade socioeconómica conduz a situações limite a que não podemos ser indiferentes, os problemas comportamentais são cada vez mais uma realidade e o desrespeito pela figura do professor é crescente. Por vezes é muito difícil, mas dá luta. Outras zonas têm alunos com menos problemas familiares ou provenientes de outro meio social e isso traduz-se num público diferente, embora tenha outras características, também elas particulares. Eu gosto de trabalhar em meios mais desfavorecidos. Sinto que o pouco que se faz é muito. E muitas vezes algo tão pequeno como uma conversa informal, um conselho, um sorriso ou um certo companheirismo são bastante para conquistar e para marcar quem tem pouco. Às vezes é difícil desligar quando chegamos a casa. Vemos coisas cruas que nos tiram o sono e que nos preocupam. Vivemos situações que nos fazem querer fugir e desistir da profissão. Há outras que nos faziam querer trazer alguns alunos para nossas casas. Há dias em que nos apetecia ir diretamente aos gabinetes de quem manda alertar para certas situações. Mas não é possível. Então vai-se tentando fazer o melhor com as condições que existem e fazendo chegar as reivindicações a quem de direito.

 

Atento ao que te rodeia, fazes de cada viagem um momento para mais tarde recordar. Isso é, digamos, a cereja em cima do bolo?

 Sim. Faço de cada viagem, seja profissional ou em lazer, um momento de aprendizagem. Gosto de descobrir o que há de típico, conhecer a cultura, a gastronomia, as expressões típicas, os monumentos, os regionalismos todos. Na maioria das vezes aproveito isso para as minhas aulas. Por exemplo, a música tradicional portuguesa e os instrumentos portugueses estão muitas vezes inseridos nos conteúdos programáticos que dou, tal como certos textos ou autores locais, entre outros aspetos culturais. E os alunos gostam. É a cereja em cima do bolo, sim. Quando me vou apaixonando pelo património cultural e paisagístico das regiões onde estou, vou pondo os meus alunos a participar em eventos fora da escola, em parceria com associações ou autarquias, sensibilizando para o património local, para a educação ambiental e para a valorização deste património e é giro ver como eles se vão envolvendo também, criando gostos e sentimentos de pertença.

 

O ensino em Portugal está como tu desejarias que estivesse ou nem por isso?

 Não, não está! Eu sou dos que descomplicam ao máximo e dos que vêem sempre o copo meio cheio. Mas não podemos escamotear essa realidade. Penso que se a pergunta fosse feita a todos os professores do país, poucos ou talvez nenhum responderia favoravelmente. Da parte da Tutela, o desinvestimento na Educação tem sido imenso. Se por um lado os alunos têm características cada vez mais particulares e o desinteresse é crescente, por outro as condições materiais, físicas e humanas de muitas escolas não são as melhores. Da parte dos alunos, o desinvestimento na aprendizagem e os problemas comportamentais são a nossa pior batalha. Mas a escola enquanto instituição não tem sabido reinventar-se, ou teve de se reinventar à força, como vimos na pandemia. Os professores souberam fazê-lo. Mas sem condições materiais, sem diretrizes adaptadas aos novos tempos e às novas realidades, um pouco à deriva com a boa-vontade das Direções. Os sucessivos Ministérios não têm conseguido lidar com os problemas reais das escolas e com as novas exigências. E nós, professores, até queremos reinventar-nos todos os dias dentro das salas de aula, mas não nos deixam. Ou o material informático está obsoleto, ou não há dinheiro, ou há limite de papel, ou não há autorizações, ou não há pessoal, ou há falta de professores, ou de auxiliares. Ou há um requerimento para tudo, até para uma cartolina. Ou simplesmente há um programa a cumprir e o fantasma dos exames nacionais e dos conteúdos a lecionar não permitem que ocupamos tempo com coisas que não sejam do programa. Ou simplesmente a burocracia para fazer alguma coisa é tanta, que a maioria dos professores desiste. Continuamos a viver num mundo de papel, requerimentos, autorizações, relatórios e complicações nas escolas, que na maior parte das vezes em nada beneficia os alunos. Então lá nos vamos reinventando conforme conseguimos, algumas vezes desmotivados, principalmente os colegas com mais anos de serviço e que contam com muitos anos destes problemas. Tudo isto condiciona muito a nossa abordagem, mesmo que queiramos dar uma roupagem diferente às aulas e às matérias. Os alunos têm ritmos diferentes, as turmas são enormes e o ensino está cada vez mais individualizado, fruto das políticas educativas, dos problemas de aprendizagem, das necessidades educativas especiais de cada aluno. Mas ainda que esteja cada vez mais individualizado, o número de horas é o mesmo e os profissionais disponíveis para trabalharem com estes alunos também, o que nos limita muito a dedicação que disponibilizamos a cada um em particular e às turmas no geral. Estes aspetos a aliar a uma carga burocrática tremenda fora do horário letivo, à desvalorização do papel do professor pela sociedade em geral, ao alheamento das famílias no que concerne à educação dos seus filhos, aos conteúdos programáticos extensíssimos e que não acompanharam a evolução e o campo de interesses dos jovens, ao regime de concurso e contratação de professores todos os anos, às condições salariais e às fracas perspetivas de carreira, fizeram desta uma profissão cada vez mais difícil e menos aliciante. Acresce ainda, claro está, o facto de grande parte dos professores terem de viver a maior parte do ano deslocados das famílias, mantendo duas casas na maioria dos casos, viagens e gastos inerentes. Não é uma profissão compatível com a ideia de criar família e ter filhos para quem está longe.

 

Falando de Mira, esta é a terra onde regressas sempre?

 Sim, Mira é a terra onde regresso sempre. Mira tem qualquer coisa de enigmático que não é fácil explicar. Quando cá estamos queremos ir embora e quando estamos fora queremos regressar. Mas tem qualquer coisa especial que nos prende e alimenta a todos. Eu tenho vivido na zona Oeste nos últimos anos, vivi no Porto outros seis, mas Mira é a casa onde recolho todos os fins de semana e onde recarrego energias. Apesar de ter vivido numa praia, todas as sextas-feiras assim que chego a Mira, a primeira coisa que faço é ir à Avenida ver o mar. Nem que não pare, abro os vidros e sinto o cheiro. E digo todas as semanas o mesmo: em mais nenhum local o mar tem o cheiro e a força do nosso. E é mesmo verdade!

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