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LÚCIA ALCATRÃO: “TENHO A CERTEZA DE QUE QUANDO FOR SENTIDA A FALTA DE PROFESSORES NAS NOSSAS ESCOLAS, A SITUAÇÃO, A FALTA DE APOIO, MUDARÁ”

ENTREVISTAS
Lúcia Alcatrão é professora, reside em Mira. Leiam o que ela tem para dizer.
 
 

Professora, as bibliotecas e a animação estão mesmo no seu caminho?

Fiz pós-graduação em biblioteca escolar e animação da leitura. As bibliotecas são muito importantes como espaço de leitura e de cultura, onde os alunos podem requisitar livros para ler, pesquisar, estudar e são também um espaço onde acontecem outras atividades fora da sala de aula que envolvem os alunos. As bibliotecas escolares têm atividades que visam a promoção da leitura e também atividades que induzem os alunos as frequentá-las com mais regularidade. O objetivo é fazer com que os alunos aprendam a frequentar a biblioteca e se tornem leitores. Sabemos que a leitura melhora as capacidades e diminuiu a ignorância. Como sabemos em Portugal os hábitos de leitura são poucos e as bibliotecas pouco frequentadas. Devido a estas constatações as bibliotecas escolares e municipais abriram as portas para atrair os leitores e tornaram-se mais atrativas, com materiais diversificados desde o lúdico ao tecnológico. Tornaram-se em espaços de poesia, de declamação de poesia, de leitura animada para os mais pequenos, de projeção de filmes, documentários, de comemoração de acontecimentos históricos, comemoração de aniversários de personalidades da nossa cultura ou estrangeiras que se tenham destacado. A bibliotecas estão e estarão sempre no meu caminho porque enquanto for professora pretendo continuar a conduzir os alunos até a esse espaço que engrandece cada um deles.

Ser professor hoje é um risco?

De certa forma é um risco como o são todas as profissões que estejam em contato com outras pessoas. Os professores são questionados, não podem ter dúvidas, não podem muitas coisas porque não podem. Muitos alunos desconhecem que, além dos direitos, têm também deveres que devem ser cumpridos de modo a contribuir para uma vida harmoniosa e pacifica em comunidade escolar. Esse desconhecimento tem contribuído para situações insólitas e muito desajustadas na escola. Relembremos o caso da disputa por um telemóvel na sala de aula entre uma professora e uma aluna … Casos de bulling escolar não são exclusivos entre alunos, mas destes para com os professores. A falta de autoridade do professor, enquanto fonte de transmissão de saber, banalizou-se e o professor é visto como alguém que pode ser tratado de qualquer forma. A falta de respeito e desconhecimento dos direitos e deveres é um risco para o professor pois este pode ser insultado e até agredido física ou verbalmente. Fatores que fazem da vida do professor um risco são imensos. Os professores quando andam na estrada, e fazem longas viagens, correm risco de vida. O cansaço de viagens longas diárias de dezenas de quilómetros de casa para a escola e vice-versa acumula-se (numa madrugada adormeci e bati … foram apenas latas). Acrescento que há docentes que fazem dezenas de quilómetros por dia, de casa para a escola e vice-versa, outros estão longe durante a semana, outros ainda estão tão longe do conforto da suas casas vindo apenas durante as interrupções das atividades letivas, os mais destemidos, mesmo estando muito longe de casa arriscam ir ao fim-de-semana para matar as saudades. Saudades da sua casa, do seu espaço, da sua cama, do seu sofá quem não tem ao fim de um dia de trabalho? Há professores contratos que lecionam em duas escolas, por vezes distantes uma da outra para completar horário. Conheço um docente que lecionava em Tomar durante a manhã e à tarde tinha que lecionar Santa Comba Dão e ao fim do dia regressava a Coimbra. Conheço outros que foram colocados no Algarve e a família ficou. Conheço professores que devido ao cansaço das viagens diárias, funções como diretor de turma e às funções atribuídas, (planificação de diária de aulas e outras atividades, correção de trabalhos, de fichas de avaliação, professores que são nomeados para mediadores de conflitos e relatores de processos disciplinares, relatórios de aulas, relatórios de sucesso e de insucesso dos alunos, professores com mais de 100 alunos e mais de dois níveis de ensino) tiveram cansaço profissional mais conhecido como do Burnout ou síndrome de Burnout. A recuperação do Burnout é prolongada. Além disto, o que tem acontecido é uma sobrecarga de funções burocráticas que ocupam muito tempo ao professor. A enormidade de funções e o não reconhecimento da importância do professor na formação dos cidadãos de amanhã, os baixos salários e a custosa progressão na carreira têm contribuído para a desmotivação, o desencanto, para o cansaço e a exaustão, para a tristeza e despaixão pela profissão. Além disso, os professores são sensíveis ao barulho de televisão e isto é o resultado de estarem horas expostos à “poluição sonora” que há numa sala de aula. Ninguém acredita! Acham estranho se um professor pedir que se baixe o som da televisão. Ser professor é um risco.

Não obstante, o que foi já referido, gosto muito de ensinar e de estar com os alunos, de lhes incutir o gosto pela aprendizagem e espírito crítico, de os fazer pensar, gosto de ouvir as suas questões, de lhe transmitir conhecimento, os valores da democracia, igualdade, liberdade, respeito, solidariedade, tolerância. Há alunos, que em grupo tornam, o ensino difícil e muito desgastante. Por vezes, termino o dia com a ” cabeça em água” devido à poluição sonora que existe na sala de aula. Cada aluno é um indivíduo que ajudamos a crescer e a ser um cidadão de amanhã. O professor de hoje tem que lidar com alunos de diferentes proveniências, com diversas histórias de vida, com muitas carências e que necessitam do apoio dos professores para melhor alcançar as competências. Muitas vezes, o professor é o amigo mais velho a quem os alunos pedem ajuda sempre que precisam, é o “psicólogo” sempre disposto a ouvir e a aconselhar, é “assistente social” que sempre que pode encontra uma solução adequada ao problema, é o “confidente de confiança” a quem os alunos fazem as suas confidências ou segredam os seus segredos mais íntimos sem receios, porque sabem que ficam guardados tal como se de um confessionário se tratasse.

Pela experiência que tem, qual a escola onde se sentiu mais à vontade?

Sempre me senti bem nas escolas por onde exerci a minha atividade. No entanto, algumas vezes fiquei privada de exercer a docência e fui sempre apoiada pelas direções das escolas, nomeadamente, do Colégio de Nossa Senhora da Apresentação, Calvão.

O que acha, mesmo, do ensino em Portugal?

Em Portugal, a grande maioria dos professores têm idade superior a 50 anos, muitos com mais de 100 alunos (cada turma tem em média vinte e cinco alunos), todos os meses reformam-se mais de 170 docentes. No próximo ano letivo, a previsão de professores que passam a estar reformados é mais de 3.500. A classe docente está envelhecida e cansada, com muitos cabelos brancos. Se houver uma mudança significativa na Educação, melhores salários, melhores condições de trabalho, redução do número de alunos por turma, com certeza haverá quem queria enveredar pela docência. No entanto, a escola de hoje é muito mais inclusiva, o ensino inclusivo faz com que os alunos desenvolvam competências à saída da escolaridade competências essas que foram já referidas. No ensino de hoje transmite-se conhecimento, mas não com mesma exigência de anos atrás.

Os professores são bem apoiados ou nem por isso?

Os professores são pouco apoiados. Os professores desde sempre ensinaram os legisladores a ler, escrever, interpretar, compreender, calcular, observar ao microscópio, fazer experiências, saber outros idiomas. No que concerne aos apoios do Estado que os professores deveriam usufruir, sobretudo os deslocados, não conheço ninguém que receba apoio ou tenha benefício para a renda de casa ou quarto, ou ajudas de custo. Enquanto houver em Portugal a desvalorização de uma profissão tão importante para a formação da sociedade e dos futuros cidadãos, enquanto se ouvir dizer que os professores são uns privilegiados, enquanto se ouvir dizer que são os impostos de todos que pagam o ordenado aos professores que, por sua vez também pagam impostos, a classe docente não é apoiada, acarinhada ou respeitada. Tenho a certeza de que quando for sentida a falta de professores nas nossas escolas a situação mudará.

 
 
 

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