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LADISLAU PARREIRA: O HOMEM QUE FEZ DO CICLISMO A SUA PAIXÃO  

Opiniao

Pediu-me, o senhor António Veríssimo, que redigisse um texto sobre o meu pai visto ele ter sido ciclista profissional e eu, na qualidade de filha adotada desta terra que me acolheu em 1976, aceitei o desafio que lancei, igualmente, à minha irmã mais velha, Isabel Parreira, residente em Itália, e que, na sua publicação “Racconti nella fattoria”, incluiu um conto em sua homenagem: “Lau, la lepre.” 

Meu pai, António Parreira, nascido a 12 de agosto de 1911, partiu aos 59 anos, quando eu tinha apenas sete. Soube que adotou, desde sempre, o nome de seu pai, Ladislau, o qual foi herdado pelo meu irmão mais velho, já falecido. Soube, também, que este era o nome de seu tio-avô e padrinho, Ladislau Parreira, vice-almirante, que se sagrou figura de destaque na revolução de 5 de outubro.  

As minhas memórias são vagas e distantes: lembro-me das suas mãos, do seu sorriso, das brincadeiras, de me chamar “nhéu-nhéu” e de me cantar “A banda” de Chico Buarque. Despedi-me dele no dia do meu aniversário, no Hospital da Universidade de Coimbra, sem ter noção que aquela seria a última vez que partilharia da sua presença e das consequências que tal infortúnio iria causar à nossa vida familiar.  

As lembranças da minha irmã são mais presentes porque contava dezoito anos quando o nosso pai faleceu. No texto que me enviou salienta o seu porte atlético e desportivo, a boa disposição, a forma impecável como trajava, sempre de fato e gravata, exibindo, orgulhosamente, o alfinete do Sporting Clube de Portugal, rodeado de “brilhantes”. Herdou do pai o gosto pela arte, pela fotografia e pela escrita e recorda, com carinho, alguns episódios de infância que ficaram na memória de uma convivência feliz e que ambas partilhamos. 

O meu pai tinha como formação académica o curso de regente agrícola, mas fez do ciclismo a sua verdadeira paixão, tendo corrido pelo Sporting Clube de Portugal e pelo Lisboa Club Rio de Janeiro durante a sua época áurea que decorreu de 1935 a 1945, tendo participado em várias provas de ciclismo, nomeadamente, na Volta a Portugal. Para memória futura dos seus feitos na qualidade de ciclista profissional, deixou-nos dez livros onde relatou, pormenorizadamente, as suas aventuras desportivas documentadas com os recortes dos jornais da época. A maior parte deste espólio foi por mim entregue ao Museu do Ciclismo das Caldas da Rainha, onde poderá ser consultado. 

Quando, em 1947, conheceu a minha mãe, Emília Parreira, meus pais tornaram-se empresários de diversões públicas e, desta forma, conheceram a Praia de Mira nos anos sessenta. Depois de enviuvar, a minha mãe fixou residência em Mira, em 1974. Hoje, com 96 anos, ainda me conta histórias sobre o meu pai e sobre a sua vida breve, mas muito intensa. Lembro-me sempre da minha mãe, emocionada, colada à televisão, a acompanhar todas as etapas da Volta a Portugal e a dizer-me que no “no tempo do teu pai, as estradas eram tão más que, às vezes, os corredores até tinham que levar a bicicleta às costas!” Partilho desta emoção e, sempre que posso, desloco-me à localidade mais próxima para ver passar a Volta ou assistir a uma etapa volante, uma partida ou chegada ou conta-relógio porque é uma forma de sentir a presença do meu pai de uma forma especial.  

Hoje, 12 de agosto, dia de seu aniversário, e num momento em que se disputa a octogésima quarta Volta a Portugal, aqui deixo um testemunho de quem fez parte da história deste evento desportivo, tão apreciado a nível nacional.  

  

Ana Paula Parreira 

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