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JOÃO REIGOTA: “ESTIVE 4 MANDATOS À FRENTE DOS DESTINOS DA CÂMARA E FOI UM PRIVILÉGIO REPRESENTAR OS MIRENSES” 

ENTREVISTAS

Fez em dezembro 30 anos da eleição de João Reigota para o seu primeiro mandato como presidente da edilidade mirense. Este foi o mote para uma entrevista onde se fazem balanços e não só. 

Não deixe de ler. 

 

Há 30 anos, concretamente a 11 de dezembro de 1993, venceste as tuas primeiras eleições em Mira. Que balanço fazes desse tempo, desse primeiro mandato? 

Para já agradeço estares aqui comigo neste sítio do coração da Gândara. Quanto ao balanço, o primeiro balanço que faço é terrível. Há 30 anos tinha 39 anos e hoje tenho 69. E embora permaneçam cá muitos sonhos e muita experiência, estamos mais velhos. 

Mas, estamos cá o balanço é difícil transmiti-lo num momento muito breve. É difícil transmitir o que foram 30 anos de sucessos, de alegrias, de tristezas, de agruras, de dificuldades, mas, o balanço é francamente positivo. Porque estamos cá e temos que dar graças, não sei a quem, por estarmos cá e podermos recordar parte desse montante de 3 décadas. 

 

Ao longo dos teus mandatos, houve obras que estão à vista em Mira, que se pode dizer “esta é uma obra do João Reigota”. Queres enumerá-las? 

Já me vai sendo um pouco difícil enumerá-las neste momento. Para já, porque não faz parte do meu dia-a-dia estar a pensar muito nisso. Estou vivo, quero participar na vida ativa, na sociedade, mas não quero ser protagonista, politicamente falando, de mais nada. O meu tempo já passou, digamos assim, mas posso dizer, com algum orgulho, que o concelho de Mira teve um desenvolvimento estrutural com os meus mandatos. Tive 4 mandatos à frente dos destinos da Câmara Municipal, foi um privilégio e uma honra representar os mirenses e os gandareses muitas vezes, foi uma vida também difícil porque, quando nós vamos para essa vida é difícil, mas, como já disse, o concelho mudou estruturalmente. Lembro-me de 3 ou 4 exemplos rápidos. No meu tempo, obras que são responsabilidade de um governo ou da autarquia, mas que se fazem e executam, muitas vezes, porque há interligação e entreajuda entre um órgão de soberania nacional e uma autarquia local, como foi o caso. 

Lembro-me, por exemplo, da criação, no tempo do Eng. Guterres, da comarca de Mira, caso único, na história, porque tínhamos sido comarca há muitos séculos. Foi uma alegria enorme a criação da comarca, deu muito trabalho, mas, de facto, depois, o governo do PSD voltou a fechar. Foi uma obra estrutural. O projeto da estrada de Mira a Cantanhede, também toda a gente esperava essa estrada pelo difícil acesso a Coimbra e o perigo que era. Também foi uma obra que mudou a rede viária naquele tempo. 

 

E a estrada que ligava Mira à Praia não era recomendável… 

A estrade de Mira à Praia de Mira era uma miséria. 

Também podemos recordar o abastecimento de águas. Metade da população de Mira não tinha água canalizada em casa. Posso aqui recordar povoações como Corujeira, Cavadas, Colmeal, Ramalheiro, Lentisqueira, Leitões, Arneiro, as zonas industriais, Corticeiro, Carapelhos. Aqui nestes locais não havia água canalizada. Não havia água ao domicílio. Esta é a realidade. Foi fruto de muito trabalho e de muita negociação e, hoje, essas povoações têm água que vem dos Olhos da Fervença. Foi negociada com Cantanhede. E, portanto, foram obras estruturais, mas, ainda hoje, há muita coisa para fazer. Porque o concelho de Mira ficou para trás, ao longo dos séculos. Antes do 25 de Abril e, mesmo depois do 25 de Abril, o concelho de Mira ficou sempre para trás. 

 

Como, queres explicar? 

Após o 25 de Abril, o concelho de Mira não sofreu grandes transformações positivas. Meia dúzia de estradas e pouco mais.  

 

Mas, falas dos anos em que foste poder e o que referes parece dizer o contrário… 

Durante os 16 anos que tive a honra de liderar, os governos do Partido Socialista mudaram estruturalmente a política local. Mesmo a nível de cultura, se formos a ver bem, temos os museus. O Museu do Território, o museu da Praia de Mira. A dinâmica que se criou nas comunidades com todo o tipo de intervenções e de obras, e de darmos voz às pessoas através das associações em cada localidade. Com obras em todas as terras, fossem pequenas ou fossem grandes, mas a mexer na essência e na alma das pessoas. Com a população a participar na vida coletiva e a ter liberdade para isso. 

 

Mas, vê-se aí nesse teu semblante uma certa desilusão… 

Sim. Há obras que hoje estão ao abandono. A maior parte delas. É natural uma certa desilusão. 

Mas, voltando às lembranças, o concelho mudou estruturalmente. As zonas industriais, o polo 2 da zona industrial, os lares de idos do Seixo e dos Carapelhos, a Piscina Municipal, a Casa da Música, o quartel dos bombeiros foi acabado no meu tempo. Fartámo-nos de trabalhar para ir buscar verbas e financiámos várias vezes. Os estádios municipais, eu sei lá. Poderia enumerar ainda outras. 

 

As pistas pedonais também foram criadas no teu tempo e… 

Falava-se muito em turismo, mas o que é certo é que faltava alguma coisa. E assim nasceram as pistas pedonais. 

 

…até receberam um prémio. 

Sim. Recordo-me perfeitamente ter ido a Lisboa receber uma menção de honra que foi entregue por Herman José. 

Eu hoje vejo isso com algum sentimento de frustração por ver a maior parte das coisas abandonadas. Mas, isso é a política atual e eu não quero entrar muito por aí. 

 

Falas de obras do teu tempo, mas, ainda há vozes que se levantam e dizem que não fizeste nada… 

O concelho mudou estruturalmente em todos os aspetos. Só, realmente, quem não quer ver, ou quem não quis ver. Politicamente, as minhas contas são saudáveis. Ganhei 4 vezes, agradeci ao povo e cumpri. Perdi duas vezes, fui para casa e dei lugar a outro que foi, assim, que o povo mandou. Portanto, estou de bem com a minha consciência e estou tranquilo. 

 

Há alguma coisa no concelho que te preocupe como cidadão? 

Preocupa-me tudo, mas, posso aqui elencar 3 ou 4 situações: a inoperância total no campo cultura, o campo cultural do concelho vive de pequenas iniciativas saudáveis, como no Seixo com a Casa Gandaresa ou outras aqui e acolá. Por iniciativas muito localizadas. Não há uma política cultural atenta aos grandes valores essenciais das origens, do desenvolvimento humano e da identidade das terras. Não há uma política que vá ao encontro dessa cultura, de uma cultura local, de uma cultura gandaresa numas terras que foram feitas com sangue, suor e lágrimas. Hoje não há respeito por isso. Vai-se fazendo uma coisinha aqui, outra acolá. Com obras que demoram meses, anos, sem programação. Isso preocupa-me. A alma do concelho, a alma das populações não estar a ser respeitada. As populações andam tristes porque a sua identidade não está a vir ao de cima. Sentem-se defraudadas. 

 

Como vês a saída de Raul Almeida antes do fim do mandato? 

Politicamente falando, não estou a falar de pessoas, estou a falar de políticos, o ex-presidente da Câmara de Mira, Dr. Raul Almeida, foi um trapaceiro político. Ter a confiança dos cidadãos, ganhar um mandato para mais 4 anos, apresentar grandes projetos para o desenvolvimento do concelho como presidente da Câmara, e, ao fim de ano e meio, deixar o concelho da forma como deixou. 

Foi um trapaceiro político. Como homem, respeito-o, como homem será um homem honesto, politicamente não o respeito. Isso também traz as pessoas tristes. Hoje temos um presidente da Câmara nomeado, mas que também tem altas responsabilidades em tudo o que se passou. Primeiro foi presidente da Junta de Freguesia de Mira, depois foi vereador e vice-presidente da Câmara. O concelho não tem uma obra estruturante, estrutural, feita em dez anos. Não há uma única que tenha mudado o concelho estruturalmente. 

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