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ENTREVISTA LUÍS ISIDORO: “O EVENTO MAIS MARCANTE FOI A COMEMORAÇÃO DO 25 DE ABRIL, EM 2012, COM A PARCERIA QUE ESTABELECEMOS COM A CÂMARA MUNICIPAL E OUTRAS ORGANIZAÇÕES”

ENTREVISTAS

Luís Isidoro teve a ideia e, durante três anos, o Movimento Cultura e Cidadania marcou a diferença no panorama cultural de Mira. Agora, ele recorda-nos tudo isso. Não deixe de ler.

 

Quando te surgiu a ideia de juntar cultura e cidadania?

A pergunta não é de resposta fácil. Tentando não ser muito longo, para não me tornar fastidioso, diria que a ideia surgiu como uma simbiose das vivências que marcaram a minha vida desde que, como ser vivo, comecei a ter consciência do Mundo onde nasci, em 1946.

O Ensino Primário Elementar, foi de 1953 a 1957, e quando o professor Florindo Griné, que tive desde a primeira à quarta classe, sugeriu aos meus pais que eu devia continuar os estudos, no liceu que havia em Mira, as possibilidades económicas não existiam – e o caminho foi ficar a ajudar a mãe: tomar conta da irmã, mais nova 4 anos e ajudar nas lides domésticas e do campo.

Até ao dia, corria outubro de 1957, que o pai chegou a casa, no fim do dia de trabalho e avisou, com pompa e circunstância, que me tinha arranjado emprego. “Vais começar a trabalhar, no dia 1 de novembro, no Sr. Mário Mendes, no Café Aliança. Talvez a ideia do futuro e longínquo Projecto Cultura e Cidadania tenha começado a germinar aí…

Em traços largos, foram 25 anos nos Serviços Florestais, 7 anos na pesca do bacalhau, a continuação dos estudos que não tivera oportunidade de continuar em adolescente até à Licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e a conclusão da vida profissional, durante 12 anos, na Direcção Regional de Agricultura, em Coimbra. Pelo caminho, atividade política, sindical e cooperativa.

Em 2011, reformado de todo esse frenesim, do qual resultaram muitas e boas recordações – e algumas dolorosas e amargas lembranças, por bem fazer e mal fazer, tendo ficado devoluto o Café Aliança, ocorreu-nos, em conversa familiar, experimentar voltar àquele lugar icónico da minha vida e desenvolver aí uma experiência de vida pessoal, alicerçada em tudo o que, desde esse longínquo ano de 1957 até aí a vida me tinha proporcionado viver.

Confesso que, nesta iniciativa, não houve qualquer juízo pré-concebido sobre a existência ou ausência de atividades culturais em Mira. Muito honestamente, queríamos ocupar-nos de algo que nos desse prazer fazer.

 

Qual das atividades que o movimento organizou te traz melhores recordações?

Se perguntares a um pai, com vários filhos, de qual gosta mais, a resposta será igual àquela que a pergunta me suscita: de todas!

Explicitando: – Para falarmos das atividades que o Movimento Cultura e Cidadania versus Café Aliança desenvolveu, é incontornável falarmos do partner, do adjunto que conseguimos convencer. Homem da comunicação experiente e também amadurecido nas agruras da vida, radicado em Mira havia tempo suficiente para conhecer Mira – e com conhecimentos adequados para os eventos que realizámos. Sem o António Veríssimo (Nota: este António Veríssimo é hoje o diretor adjunto desta nova versão do Jornal da Gândara e o mesmo que esteve ligado ao referido movimento numa outra fase da sua vida) não teria sido possível termos feito o que fizemos: lançamento de livros e respetivos autores, várias exposições (pintura, cerâmica, artesanato), saraus de poesia, música (noites de Fado), palestras e tertúlias políticas, homenagem a figuras públicas mirenses (Maia Alcoforado Luís Miranda Rocha). Bom, talvez a que mais marcou tenha sido a comemoração do 25 de Abril, em 2012, com a parceria que estabelecemos com a Câmara Municipal de Mira e outras organizações.

 

Achas que Mira, em 2012, foi mesmo a Capital da Liberdade?

Passe a imodéstia, sim. Se considerarmos as proporções sociológicas de um concelho com menos de 15 mil habitantes, um entre 308, termos comemorado Abril durante um mês, com a visita e participação de figuras da Liberdade, como Alípio de Freitas e Camillo Mortágua, entre outros e culminando com a colocação de um obelisco, no Jardim Municipal, em homenagem a Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, creio que sim.

 

Desse tempo, ficaram alguns amigos. Queres falar desses amigos?

Felizmente, ficaram muitos. Alguns, a ceifeira impiedosas já os levou. Outros, continuam por cá – e desejo que por mais uns bons anos, lúcidos e sábios como os conheço. 

Para além de autores, expositores e membros dos grupos que passaram no Café Aliança, tivemos (eu, a Arsénia Balseiro e o António Veríssimo) a colaboração desinteressada do Domingos Neto, da Fernanda Batista, da Zélia Morais, da Guida Alegrio, da Ana Maria Soares, entre outros.

Resta acrescentar que os que partiram e os que me fazem o favor de estarem bem vivos, têm lugar cativo no meu coração. Juntos, ao longo desses três anos (2011, 2012 e 2013), construímos uma das melhores páginas da minha vida. A todos estou muito grato.

 

Falemos agora da cultura em Mira, na atualidade. Como vês a cultura em Mira?

Alguém em Mira (creio que o Poeta Bingre), terá afirmado, há muitos e muitos anos, que seria mais fácil atirar a torre da Igreja Matriz abaixo do que a cultura entrar em Mira. Acho essa expressão, mesmo que tenha muito pó em cima, um bocado exagerada. Não vivi esse tempo para poder emitir juízo a propósito.

O que podemos aquilatar do hoje, de agora? Que eu me recorde, (era eu criança, adolescente) fez-se bom teatro em Mira. Chegou a haver dois ranchos folclóricos, o Luz e Vida e o Flores da Nossa Terra. Existiam (e ainda existem) os Caretos da Lagoa, que rivalizam com outros caretos do Norte do País (acho que em Podence, Trás-os-Montes). Em boa hora foi criada a Confraria Nabos e Companhia, nos Carapelhos.

Houve intensa atividade desportiva, com três grupos de futebol séniores e o Clube Domus Nostra, em Portomar, mais virado para as camadas mais jovens. Faz-se excelente teatro no Seixo de Mira.

Para além das festas e romarias tradicionais em quase todos os lugares do concelho. E que me perdoem se me esqueço de algum ou de alguma que não tenha referido.

 

Achas que se pode fazer mais?

Acho que sim. Há sempre algo mais que podemos fazer. O tempo, essa abstração que passa sem darmos por isso, traz sempre novos desafios às sociedades e as suas interconexões com o meio onde se fixam e desenvolvem as suas atividades.

 

E o Movimento Cultura e Cidadania? Faz parte do passado?

Aprofundar a cultura e as formas adequadas de viver em cidadania será um desafio constante e motivador. O Movimento Cultura e Cidadania será sempre, para mim, um projeto nunca acabado.

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