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ENTREVISTA CÂNDIDO FERREIRA: “NASCI EM FEBRES E É NA GÂNDARA QUE PRESERVO O MAIOR LOTE DE AMIGOS, ALGUNS QUE ATÉ CHORAM QUANDO ME ABRAÇAM”

ENTREVISTAS

Cândido Ferreira é médico e escritor e outras coisas mais. Nesta entrevista, este homem nascido em Febres fala de tudo o que lhe vai na “alma”. 

 

Médico, escritor, empresário, cidadão e político. Afinal, quem és tu, “romeiro”?

 Um “provinciano” que sempre teimou em percorrer as sete partidas do mundo, sensível aos dramas humanos com que diariamente tropeça e que não desiste de defender as causas justas em que, desde menino, acredita. Alguém que nasceu patriota e médico e que teve o raro privilégio de só fazer aquilo que gostava.

 

Ocupaste vários cargos políticos. Que recordações guardas desses tempos?

Nunca exerci qualquer cargo de nomeação política. Tendo-me dedicado a múltiplas áreas no desporto, conhecimento e artes, registo ainda como “passatempos preferidos” a ligação a uma família estruturada e uma “coleção” imensa de leais amigos.

Em 1975, recusei um lugar elegível na Assembleia Constituinte, pelo PS de Coimbra e, em 1993, a eleição para a AR, por Leiria, onde era Presidente da Federação Distrital. Aí, antes disso e contra “Lisboa”, mas após resultados surpreendentes naquele “cavaquistão” que era Leiria, exerci cargos autárquicos benevolamente. Confiava as senhas de presença à Secretaria, que religiosamente as entregava às instituições sociais, culturais e desportivas mais ativas, sem olhar a Partidos.

Depois, como vereador, percebi que, com tanta armadilha montada, corria grave risco de vir a ser apanhado num qualquer esquema. Cedo interrompi o mandato e os meus pares atribuíram-me então, por unanimidade, o único “voto de louvor” em todo o século XX. E ainda fui alvo de dezenas de homenagens e festas de convívio espontâneas.

As minhas “previsões”, como sempre, tinham razão de ser. Não escapei à acusação pública de obter vantagens pessoais com algumas “doações”. Ridícula tese que seria, como inúmeras outras acusações e contraordenações que as autoridades e a imprensa forjaram contra mim, silenciosamente arquivadas por falta de provas ou por prescrição.

Considero essas minhas curtas incursões pela política ativa, arte em que é preciso andar ao jeito da manada, como os “passos perdidos” de uma vida que, de trepidante e ativa, me deu muito mais alegrias e recompensações do que alguma vez imaginei.

 

Um dia, lembraste-te de ser candidato a Presidente deste país. Que mosca te mordeu?

Sou alguém que não hesita em tomar decisões firmes, se bem amadurecidas e suportadas em realidades. Quanto a mordidelas de bicharada, ainda aparecem rafeirotes tresmalhados a ladrar de longe. Quanto a canídeos de grande porte, sabem bem que não se devem aproximar das minhas canelas. Já quanto a moscas, nem sei o que isso é.  

Mas, respondendo à tua pergunta, em 2010, face ao descalabro que ia pelo PS, centenas de descontentes insistiram que me candidatasse contra a “estrela” José Sócrates, porque outro “valente” não encontravam. Essa “missão”, porém, depressa foi abortada com dezenas de apoiantes a receber recados intimidatórios. E até eu próprio fui proibido de aceder à Sede do Largo do Rato. Está tudo nos jornais.

Certo é que o “bichinho” se espalhou e, com a adesão quase espontânea de centenas de ilustres personalidades de vários quadrantes políticos e profissionais, convenci-me que, num quadro legal não controlado por aparelhos partidários, ainda pudesse transmitir algumas mensagens importantes.  

No entanto, três meses depois da apresentação da candidatura, bloqueado pela principal imprensa, que sobre mim só passava contrainformação, ganhei a certeza de que o melhor seria desistir. Pois se até entrevistas televisivas solicitadas foram alvo de apagão, enquanto jornalistas amigos me avisavam que sempre se acendia uma qualquer “luz vermelha”, quando o meu nome aparecia nas Redações.

Ainda quis passar o “testemunho” a outrem, mas, entretanto, os meus amigos já tinham obtido metade das assinaturas. Um “comandante” nunca deserta e eu passaria o resto dos meus dias de mal comigo mesmo se saltasse do barco. Segui em frente, na convicção de que poderia fazer passar algumas mensagens úteis: fui o único português que, então, denunciou junto de Joana Marques Vidal, as vigarices na TAP, só agora em investigação; e quem denunciou o Caso BANIF e pretendeu alertar contra o despesismo da “casa lusitana”, tendo a coragem de assumir frases como: “ou há 35H/semanais para todos, ou não há para ninguém”.

Não raro, ainda hoje gente anónima, mas com boa memória, me reconhece e me saúda na rua, fazendo-me sentir que Portugal estaria bem melhor se o PS me tivesse apoiado naquelas eleições. Reconforta-me ouvir tais opiniões, até porque diariamente assisto a trapalhadas inadmissíveis em qualquer mandato que eu exercesse.

E mais uma certeza me resta: sempre lutei por causas e não por lugares e mordomias e, em toda essa “campanha” eleitoral, pesem distorções aos meus discursos, nunca ninguém me ouviu pedir: Vote Cândido Ferreira!

 

 Os livros fazem parte integrante de ti. Que relação tens com eles?

 Muitos amigos insistem que esses livros são a componente mais importante de uma vida muito rica, em áreas extremamente diversificadas, desde o primeiro transplante com sucesso em Portugal até à direção de uma Clínica, por muitos observadores considerada como a melhor do mundo no seu tempo e especialidade.  

No entanto, sempre virado para o futuro, e sem sete vidas para viver, raramente releio os escritos do passado. A vida é curta e há que ir em frente.

 

A propósito: qual foi o livro que te deu mais gozo escrever?

Por norma, é sempre aquele que estou a organizar e a que, obsessivamente, me entrego por completo. A escolher, optaria talvez por aquele em que, pela primeira vez, me senti “escritor”. Refiro-me ao romance bem gandarês, “A Paixão do Padre Hilário”.

 

Empresário, entraste na produção vinhateira. Foi um risco bem pensado?

  Tendo adquirido alguns recursos no final da minha carreira, e em época de dinheiro volátil, em vez de confiar as poupanças aos gabirus da banca, entendi regressar às minhas origens rurais e retomar a arte de “empobrecer alegremente”. Nem imaginava a carga de trabalhos e despesas em que me metia, apenas recompensadas pelo prazer de receber amigos e ter erguido uma Unidade Hoteleira que, no seu âmbito, no ano passado, foi considerada a melhor do mundo, merecendo dez prémios internacionais atribuídos, sem concurso, pelos maiores operadores do mundo. Quanto à qualidade do vinho produzido, o melhor mesmo é só falarmos depois de uma boa prova…  

 

Nasceste em Febres. Que te diz ainda a tua terra?

Nasci em Febres e é na Gândara que preservo o maior lote de amigos, alguns que até choram quando me abraçam. É lá que quero ser enterrado, sob uma lápide que já adquiri.

 

 De que modo tens dito presente à terra que te viu nascer?

As pessoas e os autarcas de Febres e arredores, tirando um ou outro invejoso ou desinformado, sabem bem que, embora nem sempre perto, continuo bem por dentro da “família”.  

 

 O Movimento Cidadania Democrática assumiu-te de corpo e alma. A cidadania, ser cidadão, é, para ti, uma atitude, uma luta diária?

O exercício da cidadania é uma luta constante, traduzida na colaboração com vários movimentos e até partidos, duas ONGS respeitáveis, centenas de artigos de opinião em revistas de referência, variados livros, inúmeros convites para comunicações em eventos por todo o país e algumas iniciativas públicas, tais como o Museu de Arte e Colecionismo de Cantanhede, entre muitas mais.  

 

Agora, parece que vais voltar à política. De que modo vais apoiar a candidatura de Fernando Pereira à liderança distrital de Coimbra do PS?

 Parece, mas não é verdade. Dispensado pelas sucessivas Direções do PS, desde 2011, mantenho lugar cativo na “bancada do clube”. Ainda recentemente fui mandatário de uma lista improvisada que, nas eleições para a Concelhia de Leiria, obteve resultados que surpreenderam tudo e todos, até porque alcançados contra o aparelho de um Partido que há muitos anos gere uma capital cor-de-rosa.

 Desta vez, foi com natural satisfação que registei que na minha “velha” Coimbra, que só de longe acompanho desde 1982, ainda se lembram de mim. Acreditando na “bondade” do projeto que me foi exposto pela equipa de Fernando Pereira, e acertadas facilmente as regras para poder dignificar tal convite, tudo farei por honrar o Partido de que fui o primeiro militante da cidade e que, hoje, tarda em encontrar soluções para os graves problemas que Portugal enfrenta.

Assumo que, lúcida e serenamente, serei escrupuloso na exigência da pacificação interna de uma organização hoje enquistada e fulanizada, mais orientada por interesses e questiúnculas internas, do que pelas práticas inscritas nos seus princípios fundadores.

É uma missão muito difícil, mas Coimbra é uma lição. Esta será uma oportunidade quase única para os militantes de base elegerem alguém com coragem para, no PS em Lisboa, introduzir as diferenças que o povo português exige e bem merece.  

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