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ELIAS QUADROS EM ENTREVISTA: “NO LIVRO, OS NOSSOS AVÓS GANDARESES LEVANTAM-SE DAS LAJES DAS PARÓQUIAS DA GÂNDARA PARA FALAR DO SEU QUOTIDIANO ATÉ QUE ‘PARTIRAM DA VIDA PRESENTE’.”

ENTREVISTAS

Elias Quadros, um homem, um gandarês, que honra os seus pares. A ler esta entrevista que cheira a Gândara por todos os lados.

 

Nasceu na Figueira da Foz e respira a Gândara por todos os poros. Como começou isto?

Sim: nasci no concelho, na freguesia de Ferreira-a-Nova em meados dos anos 40 do século passado, num lugar sem escola, sem médico, sem luz, sem estrada, sem moeda. Que, nessa altura, era ainda o padrão de quase toda a Gândara. Era um tempo em que ainda não havia ‘trabalhadores’, só pessoas que trabalhavam. E que vida! 

Toda a gente labutava no campo ainda mais arrendado que herdado sendo muitos os que nem sequer conseguiam milho e batata para alimentar os filhos durante o ano. Tinham de partir como ‘malteses’ para as ‘praças de jorna’ do Ribatejo e do Alentejo a alugar braços e enxadas. De volta, da ‘invernada’ de 6 ou 7 meses sem vir a casa, traziam uns milhares de reis para pagar a ‘décima’ e uns trapos, da ‘Feira dos Farrapos’, de Montemor, para agasalhar a família. 

Porém, enredados em tamanha pobreza, miséria mesmo, os Gandareses eram felizes. E celebravam a vida nesse breve instante que dura. 

Tive o privilégio de pertencer ao grupo dos primeiros graduados da Primária entretanto chegada, mesmo no fim do Plano das Escolas dos Centenários. 

Logo comecei a trabalhar, a ganhar o meu primeiro salário à quinzena. Ali trabalhei até aos 13 anos. Depois correndo por Seca e Meca ali volto para celebrar heróis. Heróis que não vindo nos manuais das Descobertas e das Conquistas fizeram a Gândara e a Cultura que nos deixaram por herança.

Eu sou essa gente!

 

Há livros escritos, de um homem que faz/fez muitas coisas. Afinal, quem é o Elias Quadros?

Certo. Falhada uma prevista bolsa do Governo, foi com o impulso de empréstimos locais e apoios de vários pontos da Gândara que consegui estudar. Por várias escolas nacionais e estrangeiras por onde em diferentes cursos e graus honrei o nome dos Gandareses. Ao mesmo tempo, trabalhava e ensinava. Também o fazia nas férias: viajando à boleia, a trabalhar aprendia com empresários e com diferentes contactos da viagem e do trabalho. 

Feita a tropa no Ultramar, foi com pena que tive de vir trabalhar em Lisboa pois, pela Gândara, ainda não havia postos de trabalho adequados. Mas tal me deu oportunidade de laborar em diferentes instituições e organizações privadas, públicas e sociais algumas estrangeiras, ou multilaterais, e ainda como consultor internacional para o desenvolvimento.

Tendo servido sob tutelas de diversas ideologias, orgulho-me de nunca ter pedido um emprego e de sempre ter recusado muitos convites, alguns para funções políticas. Mas sempre detestei trelas, partidárias ou outras, até porque gandarês não é gente que ‘coma à mão’.

Por todas as funções que exerci nunca perdi o contacto com o ensino e a formação, acabando a carreira a lecionar em níveis de licenciatura, mestrado e doutoramento na Universidade.

 

Voltando aos seus livros. O que é que eles representam?

Agora, jubilado das lides académicas, tenho tido mais tempo para a escrita. Ainda o ano passado, publiquei na Almedina um manual universitário ‘Administração e Gestão Pública’. 

Mais disponibilidade também para compilar e organizar muitas horas de pesquisa da História Local da Gândara. De que resultaram textos simples, mas historicamente exigentes, em que a Gândara é vista no contexto nacional e externo. Sobre a Gândara, foram publicados 4 títulos. 

Com a persistência destas pesquisas pretendo, de algum modo, devolver à Gândara e à sociedade um pouco do muito que me ofereceu pela vida fora: as primeiras luzes, a devoção ao trabalho, o culto da ética, da honradez. Por outro lado, importa homenagear a sábia gente da Gândara que apesar de, por séculos, sem escolaridade não fique ignorada sob as lajes das paroquiais. Pretende-se, por fim, desvendar o segredo da felicidade dos Antigos Gandareses; preservar a memória dos que arrotearam a Gândara e nos legaram uma cultura de entreajuda, de solidariedade; prestar tributo aos homens e mulheres que sofredores, disciplinados, pacatos embora souberam resistir, com tenacidade e argúcia, às prepotências do Poder.

 

Sente que os leitores dão o real valor aos seus escritos?

Estes livros da Gândara não se encontram nas livrarias. São edições do autor que facilita diretamente o seu acesso aos interessados. 

A distribuição para além de sessões de apresentação e de autógrafos, organizadas por Associações e Autarquias locais é efetuada por via postal. Estes dois mecanismos têm exigido sempre novas tiragens, cifrando-se em milhares os exemplares já disseminados.

Os principais interessados são naturalmente os Gandareses que hoje, felizmente, já todos são letrados. Muitos, aliás, com o ensino secundário completo, licenciatura, até com mestrado e doutoramento. O que muito alegra quem assistiu ao início da democratização da escolaridade pela Gândara

Demais, vasta plêiade de Gandareses espalhados pela antiga ou pela nova emigração telefona, escreve, requer exemplares, mais exemplares para si e para amigos. 

Outros grandes grupos de interessados são os milhares de colegas e colaboradores das muitas organizações onde o autor trabalhou ou geriu. Entre eles se contam os alunos e colegas de ensino, da Universidade, dos tempos em que era ‘explicador’, da época em que lecionou o secundário, e até de quando dirigiu um centro de formação por correspondência, reconhecido oficialmente em papel, só papel de centenas de alunos nas diferentes áreas da Gestão Empresarial. 

 

Fale-me dos seus livros. E dê a conhecer a quem lê este jornal o que pode encontrar neles.

GÂNDARA O CICLO DE FERRO 

Retrata a vida na Gândara em meados do século passado.

Espezinhados pela pobreza, analfabetismo e prepotências do Poder, conheceram, os Gandareses, por séculos, um fadário de miséria, repetido de geração em geração. Envolvidos num verdadeiro arco de ferro que nenhum trabalhador – por si só, em família ou em conjunto, lambuce o que lambuce – era capaz de quebrar.

Ciclo ou círculo de ferro diz respeito à situação em que uma comunidade, por mais esforços que faça, não consegue ultrapassar por si só a pobreza. Que se perpetua de geração em geração, a menos que surja algum fator externo que corte esse fadário e permita à comunidade sair dessa órbita infernal e aspirar a ascender a outro ou outros estádios de vida.

O livro descreve o quotidiano das Gentes Gandaresas: trabalhos agrícolas, técnicas de cultivo, culto dos que sabiam ler, combinação de trabalho e lazer, feiras, festas e romarias, espírito comunitário. Percorrendo todo o ciclo de vida do Gandarês do nascimento à juventude, das migrações sazonais à ida às sortes, do namoro ao casamento, da doença ao funeral anunciam-se novas luzes no horizonte da Gândara.

Que, a partir dos anos 50 do século XX – propiciaram a inversão da sina, mudar a sorte das Gentes Gandaresas.

 

POETAS E CANTADORES DA GÂNDARA. 

O fadário da Gândara não impedia, porém, as pessoas de serem felizes, de encontrar contínuos motivos para celebrar a vida: de vivê-la com alegria no breve instante que dura. 

O segredo dessa felicidade, desse gosto telúrico de viver radicava no casamento perfeito da labuta com a festa, do trabalho com o lazer! 

Realmente, boa parte das tarefas agrícolas – sementeiras, sachas, colheitas – eram feitas em colaboração com os vizinhos em sistema de ‘hoje p ´ra mim, amanhã pra ti’, em simples trocas não intermediadas por moeda. Os principais trabalhos agrícolas eram efetuados por ‘ranchos’, de vizinhos, normalmente da parte da tarde, nas famosas ‘tardadas’ de trabalho.

Demais, ocasião de folguedo e divertimento eram – para além do trabalho partilhado – sempre as celebrações familiares, as feiras, as novenas, as festas e romarias. Com domingos e dias santos, outras ditosas pausas – de há muito instituídas pela Santa Madre Igreja – para braços exauridos das canseiras do amanho dos campos.

O livro introduz e apresenta também uma seleção de poemas de poetas populares bem como dos tocadores de guitarra e concertina da Gândara do século XX.

 

GANDARESES POR FRANÇAS E ARAGANÇAS DA VIDA

Quebradas as cadeias que, por séculos, amarraram os Gandareses ao fadário da pobreza, o livro acompanha – ao longo de décadas – Gandareses da geração de meados do século passado.

Atento aos acontecimentos em redor, o livro regista – por sendas tantas vezes talhadas a golpes da catana do esforço e persistência – pegadas da Gândara, na História recente do País. 

As narrativas não compactuam com trelas partidárias, de sociedades escusas ou de outros poderes obscuros que comandam a Sociedade e tentam capturar o Estado. 

O livro releva o papel de quatro leiras que tantos Gandareses lavraram pela vida, os campos que gradaram, donde viram frutos de progresso, valores sociais e amizades. Tantas jeiras – não raro povoadas de agrestes cardos e de fossos traiçoeiros – foram, muitas vezes, cavadas a mãos cruzadas: estudo e aprendizagem; viajem e descoberta; serviço e promoção; trabalho e partilha.

 

GÂNDARA: OS NOSSOS ANTIGOS AVÓS

Arroteado a calos de enxada, a bagas de suor regado, adubado a lágrimas de mulher – Gândara é um chão novo, há pouco roubado ao mar. As raízes da Gândara prendem-se a Coimbra.

Mas, mais a Montemor-o-Velho antiga vila a que a capa deste livro presta homenagem!

A Gândara, desde os pinheirais das caravelas, salta as bazófias do Mondego, corre além dos pescadores da arte xávega da Tocha e de Mira, trepa pelos moliços da Ria de Aveiro até ver os ceboleiros a abraçarem os cagaréus. 

Pescadores’, ‘trabalhadores de enxada’, ‘jornaleiros’… são gandareses que desfilam à nossa frente desde o século XVII no registo dos livros das paróquias da Gândara e de outros documentos antigos. É uma fila longa que ultrapassa a dúzia de gerações no decurso de quatro séculos a labutar com as ondas traiçoeiras e a curtir as sáfaras areias da Gândara que nos legaram férteis e generosas por herança. 

Tal como os libertos das lavas do Vesúvio em Pompeia, ao folhear os livros de 400 anos de registos aparecem os Antigos Gandareses. A enfrentar o mar traiçoeiro, a arrotear charnecas, enxugar pântanos, a domar inconstantes dunas de areais sem poiso fixo, a sofrer tantas opressões de poderosos…

Quem foram eles, como se chamaram, quando e onde nasceram, quem foram seus pais, avós e padrinhos, quem lhes entregou o facho da Esperança de uma vida melhor no Além?

Quem foram esses que moirejaram no mar e em terra, comeram acelgas, almeirões e saramagos, cebolas, alhos e azeitonas com peixe seco e côdeas de cevada e centeio? 

É para o convívio destas gentes de gerações passadas que nos conclamam as páginas deste livro. Ao encontro dos nossos Avós Gandareses, despertam os textos para a importância de conhecer e venerar os avós, os bisavôs, os trisavôs, os decavós e os de gerações mais distantes.

No livro, eles levantam-se das lajes das paróquias da Gândara para falar do seu quotidiano até que ‘partiram da vida presente’.

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