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A PROJEÇÃO EXTRÍNSECA

Opiniao

A projeção extrínseca é um “movimento” realizado pelo ego humano, na tentativa de realização de “fora para dentro”. É ele um dos responsáveis pela criação da «síndrome da vitimização». Mesmo que de forma indireta e inconsciente. Por exemplo, se a pessoa não tem autoestima, numa busca inconsciente de realização da mesma, poderá projetar a sua busca para fora de si mesma, em busca de atenção, valorização, reconhecimento e satisfação de expectativas que possam ter de si. Ou seja, em vez de ir buscar “dentro”, projeta-se para fora, mesmo que de forma inconsciente, e vai buscar às outras pessoas. O mesmo se sucede com a solidão. Qualquer pessoa, sentindo solidão, sentindo um vazio interior, tem duas grandes opções: ou se projeta para fora, e vai tentar resolver esse problema de “fora para dentro”, buscando a atenção das outras pessoas para tentar tapar, para tentar compensar o vazio que sente, ou responsabiliza-se pelo problema e pela solução do mesmo, olhando para dentro e tentando resolver esse mesmo problema de “dentro para fora”.  Portanto, há duas grandes formas de se relacionar com o mesmo problema, tanto diante a questão da autoestima, como diante a questão da solidão: ou se centra em si mesma, ou projeta a sua realização para “fora”.  

Quem vive em função de uma «síndrome da vitimização», vive em constante projeção. Vive constantemente a arranjar culpados para tudo de desagradável que acontece na própria vida. Vive com a sua consciência quase completamente centrada fora de si mesma, vive com a sua consciência quase completamente centrada nas outras pessoas. O raciocínio acaba por ser este: se a causa dos próprios problemas é exterior, se a causa dos próprios problemas prende-se quase única e exclusivamente nas outras pessoas, então, as outras pessoas é que têm a solução para os mesmos, as outras pessoas é que são culpadas pelos mesmos, as outras pessoas é que são responsáveis pelos mesmos, as outras pessoas é que têm o dever e o poder para os resolver. O que pode ser muito limitador e conflituoso. Além de ser contraproducente. É claro que as outras pessoas poderão ter as suas responsabilidades, mas não terão certamente todas. São muitos os problemas que as pessoas vivem, gerados pelas próprias escolhas, que podem e devem ser resolvidos pelas próprias pessoas. Pois são da responsabilidade das mesmas, pois são gerados pela forma como usam a própria liberdade, a própria liberdade intelectual. 

Há pessoas que se sentem infelizes, e que estão sempre a arranjar culpados para a própria infelicidade. Por vezes diante problemas em que têm uma responsabilidade quase total. Como não assumem essa responsabilidade, não poderão fazer uso do poder que poderão ter para os resolver. Ora, não é só a liberdade que deverá trazer responsabilidade consigo. Também a responsabilidade assumida, pode aumentar a liberdade potencial que se poderá ter, realizar. A responsabilidade aumenta a liberdade e a liberdade aumenta a responsabilidade (pelo menos deve aumentar). Quem está sempre em projeção extrínseca, quem está sempre centrado fora de si mesmo, além de naturalmente acabar por viver em função de uma «síndrome da vitimização», também acabará por não desenvolver a liberdade e autoconsciência suficientes, para poder ser feliz, para poder transitar responsavelmente de um estado de infelicidade para um estado de felicidade, ou simplesmente de mais felicidade. Uma vida sem autoconsciência, uma vida de projeção, é uma vida de alter-egos, é uma vida vazia, de máscaras,  sem realização possível, pois é uma vida de escravidão do alheio, de escravidão das outras pessoas. Uma vida de dependência emocional. Com pouco ou nenhum crescimento interior, emocional, consciencial, etc. 

Capítulo da obra “Existencialismo, budismo, filosofia e felicidade” (Chiado Books, 2022). Autor Filipe Calhau.

Link para aquisição da obra, caso se pretenda algum aprofundamento intelectual na área:

https://publish.chiadobooks.pt/site/?r=userwebsite/index&id=filipecalhau/bookdetails/290112

Canal de Filosofia no YouTube: https://www.youtube.com/c/FilipeFerroCalhau/videos

No spotify (podcast): 

https://open.spotify.com/show/3DLE38KkwHFJ2B6LOQ2Hdl?si=4d8f79602b89468f



Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

 

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