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A IMPORTÂNCIA DA AUTOESTIMA E DE UMA PEDAGOGIA DA AUTOESTIMA

Opiniao

A autoestima tem uma profunda relação com a liberdade individual e com a felicidade. Sem autoestima a nossa liberdade intelectual e felicidade ficam profundamente condicionadas. Assim como, a possibilidade de relacionamentos saudáveis, em todos os enquadramentos, não apenas em termos afetivos. A falta de autoestima condiciona a relação da própria pessoa consigo mesma, e por causa disso, condiciona a relação com as outras pessoas. 

Como é que a falta de autoestima condiciona profundamente o exercício da própria liberdade intelectual? Ora, autoestima, entre outras coisas, é uma questão de independência emocional. Através de uma independência emocional consegue-se uma independência intelectual. O que levará à liberdade intelectual. Uma pessoa sem autoestima, naturalmente tentará compensar a falta da mesma através da busca inconsciente por reconhecimento dos outros, por amor e valorização dos outros. Pois naturalmente e inconscientemente, quando não se tem “dentro”, vai-se buscar “fora”. A prioridade do exercício intelectual, interpretativo, é a liberdade com que deverá acontecer. Não deverá ser alguma forma de compensação. Uma pessoa sem autoestima, naturalmente e inconscientemente, tem como prioridade, compensar a falta de autoestima, satisfazendo as expectativas que os outros possam ter de si. Por causa da falta de autoestima, por vezes as pessoas têm tanto medo de ser rejeitadas por outras pessoas, que acabam por condicionar a própria liberdade intelectual, com medo que ela leve a alguma forma de diferenciação. Pensar livremente pode implicar pensar de forma diferente. E pensar de forma diferente (de uma maioria ou de quem se quer satisfazer expectativas), pode implicar a rejeição de algumas pessoas. Pessoas que, poder-se-á não querer de todo a rejeição. Por se depender emocionalmente da valorização. 

A autoestima é um hino à própria liberdade intelectual. A autoestima acontece, só acontece, de “dentro para fora” de cada pessoa. A partir do momento em que não se tem autoestima, naturalmente procurar-se-á compensar. Até que se resolva pela raiz o problema. Com um processo de interiorização, de auto-consciencialização, auto responsabilização e auto harmonização. 

Uma pessoa sem autoestima, tem tudo para fazer as escolhas “erradas” na sua vida, relativamente à conquista da felicidade. Pois acaba por viver de “fora para dentro” ao invés de viver de “dentro para fora”. A sua vida acabará por girar à volta da compensação. Do medo da rejeição. Ao invés de girar à volta de uma profunda Liberdade. «Muitas pessoas gastam o dinheiro que não têm, para comprar coisas que não precisam, para impressionar pessoas que não gostam.» Uma frase comummente associada a Will Smith. Sendo verdade, e acredito que seja mesmo verdade, prova que há muitas escolhas que as pessoas fazem com uma tentativa inconsciente de compensar a falta de autoestima, em busca de reconhecimento, atenção e valorização das outras pessoas. O que poderá condicionar até as finanças pessoais. Osho disse uma vez que a nossa vida começa onde termina o nosso medo. Há maior medo do que o medo da rejeição dos outros? Não será este um dos medos que mais afeta as pessoas? Reflitamos acerca disto.

  Quanto aos relacionamentos? De que forma é que a falta de autoestima condiciona a harmonia e liberdade nos relacionamentos interpessoais? Porque é que há pessoas que se sujeitam a ser maltratadas nos relacionamentos afetivos, tendo a possibilidade de terminar imediatamente a relação? Há vários fatores. Um deles, um dos principais, prende-se na falta de autoestima. Que tem uma relação direta com o vazio existencial, com o problema da solidão. Há pessoas que dependem tanto da aprovação, do amor, da valorização e atenção das outras pessoas, que preferem estar em relacionamentos nocivos, de qualquer tipo, do que estarem fora de um relacionamento, do que terminarem um relacionamento. O medo provocado pela solidão e falta de autoestima é tão grande, que preferem, mesmo que de forma inconsciente e indireta, permanecer em relacionamento do que terminar. Este é mais um tipo de contexto em que a falta de autoestima condiciona profundamente a felicidade das pessoas. 

Eu acredito que tudo o que condiciona a felicidade das pessoas deve ser abordado pedagogicamente. Devemos projetar um Sistema de Ensino que crie pessoas felizes, não que, crie pessoas doentes, para que depois eventualmente procurem terapeutas. Se a autoestima é tão importante para a felicidade, deve ser seriamente integrada em qualquer projeto pedagógico.  A felicidade precisa de fazer parte prioritária dos projetos pedagógicos. Não se deve investir em projetos pedagógicos que criem pessoas doentes, para depois, e só depois tratá-las. Deve-se prevenir, não apenas remediar. 

Como é que se pode praticar a radicalidade filosófica, indo-se à raiz dos problemas? Corrigindo-se os Sistemas de Ensino naquilo que poderão estar a falhar. Não devemos apenas investir em melhorar as terapêuticas. Devemos investir num projeto pedagógico que não crie de uma maneira ou de outras pessoas doentes. Com graves lacunas no âmbito felicitário. 

A falta de autoestima afeta inclusive as relações profissionais entre as pessoas. O que poderá afetar negativamente, direta ou indiretamente, a Economia. Bastando que condicione profundamente a felicidade das pessoas. Já sabemos que a felicidade torna as pessoas mais produtivas. Quando estão a realizar um trabalho com que se identifiquem. Não basta esperar que os pais colmatem este tipo de lacunas. Os pais, como não receberam este tipo de pedagogia nos Sistemas de Ensino por onde passaram, nem dos próprios pais, que também não a receberam de nenhuma maneira, não terão condições para a realizar. Temos de cortar com esta corrente. Alterando-se o projeto pedagógico. Ora, compreendendo-se a importância da autoestima para a liberdade intelectual, e consequente pensamento crítico, e para a harmonia individual e intersubjetiva, tem-se de admitir a importância de a integrar em qualquer projeto pedagógico felicitário. 

Voltando à questão dos relacionamentos. Pessoas sem autoestima, além de poderem tornar-se possessivas por causa disso, também poderão sujeitar-se muito mais facilmente a relacionamentos nocivos. Os relacionamentos saudáveis só acontecem entre pessoas interiormente saudáveis. Qualquer relacionamento deve acrescentar coisas positivas às pessoas. Não deve apenas acrescentar coisas negativas. Como se fosse um peso. Um fardo que as pessoas aceitem com medo da solidão. Relacionamentos que acontecem porque as pessoas sentem solidão, porque as pessoas não têm autoestima, estão naturalmente fadados à infelicidade. As pessoas precisam, em primeiro lugar, de se conhecerem a si mesmas. Ao invés de andarem constantemente obcecadas com as outras pessoas, e com os relacionamentos. Tentando compensar aquilo que precisa de ser resolvido pela raiz. Um problema causado pela auto ignorância e auto abandono. Reflitamos filosoficamente acerca disto. Até em termos pedagógicos.




Capítulo da obra “Reflexões filosóficas sobre a felicidade Todos os Volumes” (Chiado Books, 2021). Autor Filipe Calhau.

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Filipe Calhau é natural de São João da Madeira e residente com raízes familiares em Vagos. É licenciado em Filosofia pela Universidade de Coimbra. É consultor filosófico. É ativista filosófico e para uma pedagogia da felicidade. Membro da APAEF – Associação Portuguesa de Aconselhamento Ético e Filosófico, onde dá formação certificada em Individualogia. Foi conferencista na 5ª edição do Seminário de Estudos sobre a Felicidade, com o tema: “Ética a Nicómaco”, realizado na Universidade Católica Portuguesa a 29 de maio de 2019. Investigador integrado no projeto “Perspetivas sobre a felicidade”, Contributos para Portugal no WHR (ONU). Tem um canal de filosofia no YouTube e várias obras publicadas na área (18 obras ao todo, publicadas em Portugal e no Brasil).

 

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